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(16–19 anos)
A Sala Onde Cabia o MundoNo início do ano letivo, a sala 1.2 parecia apenas mais uma turma entre tantas outras. Mesas alinhadas, mochilas encostadas às cadeiras e o habitual murmúrio antes da professora entrar. Mas bastava ouvir com atenção para perceber que ali cabia um pouco do mundo inteiro. Havia o Amir, que tinha vindo de Marrocos e falava um português ainda tímido, misturado com palavras árabes que escapavam sem querer. O Mykola, da Ucrânia, que desenhava durante os intervalos e raramente falava sobre o país que deixara para trás. A Camila, brasileira, que ria alto e dizia sempre que em Portugal o inverno parecia durar uma eternidade. E o Diogo, que tinha nascido ali mesmo na cidade e que, no início, não sabia bem como falar com colegas tão diferentes. Durante as primeiras semanas, cada um parecia viver no seu pequeno mundo. Nos trabalhos de grupo, formavam-se equipas entre os amigos habituais. No recreio, as conversas dividiam-se por sotaques e costumes. Não havia conflitos, mas também não havia verdadeira proximidade. Tudo começou a mudar numa aula de História. A professora propôs um trabalho diferente: cada aluno deveria partilhar algo do lugar de onde vinha — uma história, uma tradição, uma música, uma comida ou simplesmente uma memória. No início houve silêncio. Depois, devagar, as mãos começaram a levantar-se. Amir trouxe para a aula um pequeno frasco de especiarias que a mãe usava para cozinhar. O aroma espalhou-se pela sala e, por um momento, todos quiseram saber mais sobre os mercados coloridos da sua cidade. Mykola mostrou um caderno cheio de desenhos de paisagens ucranianas e explicou, com alguma emoção, que desenhar o fazia sentir mais perto de casa. Camila falou das festas no Brasil, cheias de música e dança. Quando chegou a vez de Diogo, ele hesitou. Achava que não tinha nada de especial para contar. Mas acabou por falar das tardes em que ajudava o avô na horta e de como este lhe dizia que a terra era generosa quando era bem cuidada. Nesse dia, a sala deixou de ser apenas uma sala. Tornou-se um lugar de encontro. Nos dias seguintes, começaram a surgir pequenas mudanças. Mykola ensinou Diogo a desenhar melhor. Camila trouxe música para o intervalo e, sem perceberem bem como, já estavam todos a tentar dançar. Amir ajudava os colegas a aprender novas palavras em árabe, enquanto ele próprio ganhava confiança no português. Perceberam, então, algo simples: ser humano é reconhecer-se no outro, mesmo quando tudo parece diferente. A interculturalidade não significa apagar as diferenças, mas aprender com elas. Na sala 1.2, entre sotaques variados, histórias distantes e risos partilhados, descobrimos que o humanismo começa em gestos pequenos: ouvir com atenção, respeitar o que é diferente e compreender que cada pessoa traz consigo um pedaço do mundo. E, quando esses pedaços se juntam, uma sala de aula transforma-se em algo maior — um lugar onde todos cabem. Constança Santos Silva; 11º ano(EPI) Escola profissional de Imagem, Lisboa |