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Vencedores: Língua Portuguesa - Escalão B - 1.º Prémio

Concurso de escrita criativa

Iniciativa que consiste num concurso de escrita criativa que implica escrever um texto original e criativo subordinado a um tema a definir em cada ano. Os textos podem ser apresentados em Língua Portuguesa ou Língua Estrangeira (Inglês, Francês, Espanhol ou Alemão).

Em 2025.2026, o concurso implicou escrever um texto original e criativo subordinado ao tema “Cidadania e interculturalidade”.
Nesta edição desafiamos os jovens a refletirem sobre o futuro das histórias bem como o futuro da leitura e da escrita em tempos de inteligência artificial e mudança acelerada.
 
Os jovens participantes, divididos em dois escalões (Escalão A - Grupo etário 12-15; Escalão B - Grupo etário 16-19), exercitaram as competências de escrita criativa associadas à reflexão do tema em apreço, tendo agora oportunidade de ver os seus trabalhos no Portal da RBE e do Agrupamento.

Linha separadora

[16.04.2025]

Categoria: Trabalhos em Língua Portuguesa

(16–19 anos)

1.º Prémio

 

A Sala Onde Cabia o Mundo

No início do ano letivo, a sala 1.2 parecia apenas mais uma turma entre tantas outras. Mesas alinhadas, mochilas encostadas às cadeiras e o habitual murmúrio antes da professora entrar. Mas bastava ouvir com atenção para perceber que ali cabia um pouco do mundo inteiro.

Havia o Amir, que tinha vindo de Marrocos e falava um português ainda tímido, misturado com palavras árabes que escapavam sem querer. O Mykola, da Ucrânia, que desenhava durante os intervalos e raramente falava sobre o país que deixara para trás. A Camila, brasileira, que ria alto e dizia sempre que em Portugal o inverno parecia durar uma eternidade. E o Diogo, que tinha nascido ali mesmo na cidade e que, no início, não sabia bem como falar com colegas tão diferentes.

Durante as primeiras semanas, cada um parecia viver no seu pequeno mundo. Nos trabalhos de grupo, formavam-se equipas entre os amigos habituais. No recreio, as conversas dividiam-se por sotaques e costumes. Não havia conflitos, mas também não havia verdadeira proximidade.

Tudo começou a mudar numa aula de História. A professora propôs um trabalho diferente: cada aluno deveria partilhar algo do lugar de onde vinha — uma história, uma tradição, uma música, uma comida ou simplesmente uma memória.

No início houve silêncio. Depois, devagar, as mãos começaram a levantar-se.

Amir trouxe para a aula um pequeno frasco de especiarias que a mãe usava para cozinhar. O aroma espalhou-se pela sala e, por um momento, todos quiseram saber mais sobre os mercados coloridos da sua cidade. Mykola mostrou um caderno cheio de desenhos de paisagens ucranianas e explicou, com alguma emoção, que desenhar o fazia sentir mais perto de casa. Camila falou das festas no Brasil, cheias de música e dança.

Quando chegou a vez de Diogo, ele hesitou. Achava que não tinha nada de especial para contar. Mas acabou por falar das tardes em que ajudava o avô na horta e de como este lhe dizia que a terra era generosa quando era bem cuidada.

Nesse dia, a sala deixou de ser apenas uma sala. Tornou-se um lugar de encontro.

Nos dias seguintes, começaram a surgir pequenas mudanças. Mykola ensinou Diogo a desenhar melhor. Camila trouxe música para o intervalo e, sem perceberem bem como, já estavam todos a tentar dançar. Amir ajudava os colegas a aprender novas palavras em árabe, enquanto ele próprio ganhava confiança no português.

Perceberam, então, algo simples: ser humano é reconhecer-se no outro, mesmo quando tudo parece diferente. A interculturalidade não significa apagar as diferenças, mas aprender com elas.

Na sala 1.2, entre sotaques variados, histórias distantes e risos partilhados, descobrimos que o humanismo começa em gestos pequenos: ouvir com atenção, respeitar o que é diferente e compreender que cada pessoa traz consigo um pedaço do mundo.

E, quando esses pedaços se juntam, uma sala de aula transforma-se em algo maior — um lugar onde todos cabem.

Constança Santos Silva; 11º ano
(EPI) Escola profissional de Imagem, Lisboa
        

 

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