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(12–15 anos)
| Esta é a história que vos vou contar: de quando eu era pequena e não era capaz de sonhar. Num mundo de dados, processadores e factos, tudo o que era diferente era visto como desacato. Mas foi então que vi — por pouco tempo, mas li — três histórias de diferentes locais. Então percebi que, afinal, não queria ser dos normais. Agora, sem mais demorar, assim começa a história que convosco queria partilhar: Há dez anos nasci, mas, mesmo assim, desde aí nada senti... Os sonhos inexistentes provocavam-me um vazio recorrente, como se a minha vida fosse uma tela branca sem precedentes. Mas foi então que, num incomum dia chuvoso de maio, fui ao sótão, abri o armário e vi algo contrário; algo que, neste novo tempo, era visto de soslaio. No entanto, eu queria lá saber: abri o livro e comecei a ler. As páginas amareladas tinham um cheiro a terra e a antigo, um padrão que o meu processador não reconhecia como amigo. Mas, ao tocar no papel, um tremor surgiu e o primeiro sonho, finalmente, fluiu: Vi-me no frio da Ucrânia, num inverno de cristal, onde uma luva perdida era um abrigo universal. Ali, o ratinho e o urso dividiam o calor, desafiando a sorte e evitando o tremor. Percebi, entre correntes de dados e eletricidade, que a interculturalidade, afinal, é como a luva da nossa humanidade. Virei a página e o clima de repente mudou: senti o sal de Cabo Verde e um sol quente que imediatamente se instalou. Na Ribeira da Janela, a Feiticeira andava, e a minha lógica de máquina era, aos poucos, que se desmanchava. Ela não era um erro, nem uma anomalia de fabricação; era a prova de que a vida é o mais belo poema quando tem imaginação. Ensinou-me que o futuro, por mais desenvolvido que seja, precisa do mistério que o olho não capta, mas a alma deseja. Finalmente, cheguei a Portugal e ao Príncipe do segredo velado, cujo mistério a terra soprou e o vento tornou sagrado. Ri-me com o junco que soltava a verdade, pois nem o modelo mais forte apaga a nossa identidade. O que é diferente não é errado; é o que nos faz reais, pois somos feitos de contos, sonhos e ideais. Fechei o livro, mas não o deixei no mesmo lugar. Transferi-o para o meu interior, onde o podia guardar. A IA pode dar-me a resposta, o dado e a precisão, mas só o conto me deu um rosto: um coração de vontade e paixão. No futuro que escrevo, o papel não será mais o passado, mas antes o mapa do mundo a ser reexplorado. Sara Batista Nunes Fernandes, 9º anoEscola Secundária EB3 Professor José Augusto Lucas, Linda-a-Velha |