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(16–19 anos)
Voz Própria(Uma jovem entra em palco com uma flauta transversal. Silêncio. Inspira.) Dizem que o futuro já chegou. Que agora basta dar instruções e uma aplicação comporá uma melodia mais limpa, técnica e perfeita do que qualquer som que eu possa tirar da flauta. (Sorri com amargura.) Sem erros. Como se errar não tornasse a música mais humana. Ontem, desafiei o algoritmo. Pedi-lhe uma peça sobre a saudade. Obtive algo matematicamente impecável, mas, quando fechei os olhos para tocar, o silêncio que ficou era vazio, sem eco! A minha saudade tem rosto, tem nome. Tem o aroma da comida da minha avó, especiarias que contam histórias de um país que não é este, mas é meu. Tem a voz do meu pai, que ainda tropeça na nova língua, mas insiste em aprender, em pertencer. (Caminha devagar.) O algoritmo desconhece o que é atravessar fronteiras com medo, ser chamada de estrangeira na terra onde nasci, carregar duas culturas ao peito e ser obrigada a escolher uma. Chamam a isto humanismo?! Acredito que o ser humano é mais do que números, que cada pessoa é história, memória e testemunho, que uma nota desafinada pode conter mais humanidade do que mil algoritmos. E a interculturalidade?! Sou a prova viva disso. Este instrumento é europeu, clássico, de metal frio, mas o sopro que o atravessa vem de pastores e poetas. Quando toco, não se ouve apenas uma escala, ouve-se o diálogo entre o som urbano da cidade onde cresci e o lamento da terra do meu pai. Num mundo turbulento, as notícias falam de muros e divisões, pergunto: que histórias contaremos amanhã? Histórias frias, para agradar o algoritmo? Ou as da colega de véu, invisível até sorrir? Do amigo que oculta o sotaque para não ser gozado? Da família que celebra dois calendários e continua unida? Do avô que conta histórias para que nunca esqueçamos? (A voz intensifica-se.) A História, com “H” maiúsculo, escreve-se nos livros; contudo, o Humanismo escreve-se no dia a dia, no ensaio que falha, na conversa à mesa, na escuta empática, na música improvisada que une culturas. A Inteligência Artificial pode compor músicas, escrever poemas perfeitos, mas nunca sentirá o frio na barriga antes de subir ao palco, não se arrepiará ao ver a plateia emocionada, não sentirá o coração disparar, quando se reconhecem na nossa música, não saberá incluir em vez de excluir. Isso é o que nos define, o que decide o futuro! As nossas escolhas! (Ergue a flauta.) Não quero competir com máquinas. Quero contar a história do meu pai, cantar a língua da minha avó, misturar culturas até que deixem de soar estranhas e se tornem familiares e transformar o outro em irmão. Se o mundo estiver dividido, que as nossas histórias sejam pontes. (E sopra a primeira nota. Não é perfeita, mas é sentida.) Rita Almeida Soares Oliveira, 12º anoEscola Básica e Secundária Dr. Serafim Leite, S. João da Madeira |