Se percorrermos a nossa escola com atenção, onde encontramos a leitura? Nos livros da biblioteca? Num aluno que lê durante o intervalo? Numa recomendação à porta de uma sala? Numa conversa entre colegas?
Estes sinais ajudam a perceber o lugar que a leitura ocupa na comunidade. E podem abrir caminho a novos encontros: uma capa desperta curiosidade, uma recomendação aproxima-nos de um livro, uma conversa dá-nos vontade de conhecer uma história.
É neste sentido que as orientações do programa aLer mais e melhor incluem a visibilidade da leitura entre os seus eixos de intervenção. Criar espaços de leitura em diferentes locais da escola, expor regularmente propostas e divulgar leituras através dos canais da comunidade são algumas das possibilidades apresentadas. Estes convites articulam-se com outros eixos do programa, como a leitura recreativa e a socialização da leitura: tornar os livros visíveis, criar oportunidades para os ler e dar espaço à partilha são dimensões que se reforçam mutuamente.
O lema que propomos às escolas — «Somos todos uma escola aLer mais e melhor» — traduz esta ideia de participação. O «todos» inclui alunos, docentes, assistentes operacionais, direção e famílias. Cada um pode contribuir para que a leitura se veja, se ouça e se viva na escola: recomendando um livro, partilhando uma descoberta ou ajudando a criar oportunidades para ler.
Naturalmente, estas orientações podem ser úteis a qualquer escola, independentemente de integrarem ou não o programa aLer mais e melhor. Todas podem cuidar da visibilidade da leitura e adaptar as propostas ao seu contexto, criando oportunidades para que os livros e os leitores ganhem presença no quotidiano.
A investigação do projeto Teachers as Readers, desenvolvido em escolas inglesas, destaca a importância de ambientes de leitura que conjugam espaços convidativos com relações entre leitores, conversas sobre livros e oportunidades para ler. A dimensão física e a dimensão social trabalham em conjunto (The Open University, s.d.).
Como podemos concretizar estas orientações no quotidiano da escola? As propostas que se seguem apresentam pequenos gestos que a biblioteca escolar, em articulação com os docentes e a restante comunidade educativa, pode integrar num trabalho regular de construção de um ambiente leitor.
Uma capa pode ser o início de uma leitura. No inquérito do National Literacy Trust de 2025, 30,9% dos participantes dos 8 aos 18 anos indicaram que uma capa ou um título interessante os motivava a ler. Os interesses pessoais e a liberdade de escolha também surgem entre os fatores mencionados (National Literacy Trust, 2025).
Vale, por isso, a pena cuidar da apresentação dos livros. O Reading Framework recomenda colocá-los à altura dos olhos dos alunos, mostrar capas e renovar as seleções com a sua participação (Department for Education, 2023).
Podemos experimentar uma pequena seleção numa zona de passagem, com cinco ou seis livros e uma frase junto de cada um:
O número de livros é apenas um ponto de partida. Importa que haja espaço para os ver, retirar e folhear. E que o convite tenha continuidade: junto da seleção, uma indicação simples pode explicar onde requisitar os exemplares ou como reservar um título.
Que leituras procuram os alunos? O que lhes desperta curiosidade? Que temas gostariam de encontrar e ainda não encontram?
No mesmo inquérito, 37,1% dos participantes dos 8 aos 18 anos referiram que os seus interesses ou passatempos os motivavam a ler. Entre os jovens que diziam gostar pouco de ler, surgiam práticas como a leitura de letras de canções, notícias, banda desenhada e ficção de fãs (National Literacy Trust, 2025). Estes dados convidam-nos a reconhecer os pontos de partida dos leitores.
Uma recolha breve pode ajudar. Na biblioteca ou na sala de aula, podemos perguntar:
As respostas podem orientar seleções sobre desporto, animais, mistério, ciência, música ou outros interesses. A partir daí, a biblioteca pode apresentar propostas próximas dessas preferências e outras que alarguem as possibilidades de descoberta.
Quem recomenda livros na escola? O professor bibliotecário? Os docentes? Os alunos? Os assistentes operacionais?
O projeto Teachers as Readers explorou o papel dos professores enquanto leitores e a importância de conhecerem literatura para crianças e jovens, partilharem experiências e desenvolverem relações em torno da leitura (Cremin et al., 2009).
Podemos criar um painel com o título «Leitores da nossa escola». Cada participante escolhe um livro e completa uma frase: «Recomendo este livro a quem…». O painel pode mudar ao longo do ano, dando lugar a diferentes pessoas e percursos.
Mas a visibilidade também se constrói numa conversa. Um docente pode levar um livro e dizer: «Esta passagem fez-me lembrar uma pergunta que surgiu na nossa aula.» Um aluno pode recomendar uma leitura ao professor, que aceita experimentá-la e, mais tarde, partilha a sua opinião.
Esta reciprocidade ajuda a dar aos alunos um lugar ativo na comunidade de leitores.
Por vezes, a recomendação mais útil aparece no momento em que estamos a escolher.
Os recursos da Open University sugerem pequenos comentários nos livros e recomendações dirigidas a colegas concretos. Propõem também que adultos e alunos recomendem leituras uns aos outros (The Open University, s.d.).
Uma adaptação simples consiste em colocar, dentro de alguns exemplares, cartões amovíveis:
«Escolhi este livro porque…»
«Acho que pode interessar a quem…»
Quem o requisita encontra a voz de outro leitor. Depois, se quiser, pode acrescentar uma resposta ou uma nova recomendação.
Também podemos preparar uma seleção «Se gostou deste, experimente…», reunindo livros relacionados pelo humor, pelo tema ou pelo tipo de narrativa. A ligação deve ser explicada: dois livros podem aproximar-se por razões menos evidentes do que terem o mesmo autor.
Um ambiente leitor também se ouve.
A síntese da investigação da Open University destaca conversas informais e recíprocas entre alunos e adultos, frequentemente espontâneas e integradas em atividades sem avaliação. Conhecer os livros e os alunos enquanto leitores ajuda a alimentar essas conversas (The Open University, s.d.).
Depois de um momento de leitura, podemos disponibilizar dois minutos para quem quiser partilhar uma descoberta com um colega. A conversa pode começar com uma pergunta simples: «Houve alguma coisa que lhe apeteça contar sobre o que leu?»
Outra possibilidade é espalhar uma seleção de livros sobre mesas e convidar os alunos, a pares, a procurar um título conhecido ou uma capa que lhes desperte interesse. O adulto acompanha, escuta e ajuda quem ainda não sabe por onde começar.
Onde se sentem confortáveis a ler? Que espaço da escola poderia acolher livros? O que mudariam na apresentação de uma seleção?
Os recursos sobre ambientes sociais de leitura da Open University propõem ouvir os alunos e envolvê-los na organização e revisão dos espaços (The Open University, s.d.).
Podemos entregar-lhes uma planta simples da escola e pedir que assinalem lugares onde gostariam de encontrar leituras. Depois, escolhe-se uma proposta viável: uma caixa de banda desenhada num espaço de convívio, uma seleção de álbuns para leitura a pares ou um pequeno expositor numa sala de espera.
Durante algumas semanas, observa-se o uso desse ponto de leitura e recolhem-se opiniões. Os livros são folheados? O local permite permanecer? Que títulos despertam interesse? O que precisa de mudar?
Nas orientações do programa aLer mais e melhor, a promoção da leitura é assumida como uma responsabilidade de toda a comunidade e uma estratégia central do projeto educativo. As intervenções devem ser sistemáticas, resultar de um trabalho articulado e colocar os alunos como protagonistas.
Por isso, estas propostas ganham força quando integram o programa de leitura do agrupamento ou da escola, com continuidade e responsabilidades partilhadas. Quem renova as seleções? Como participam os alunos? Que momentos permitem descobrir os livros apresentados? Como chegam os convites às diferentes escolas e aos vários níveis de ensino?
Para começar, a biblioteca escolar pode combinar com uma turma três ações: preparar uma seleção acessível, recolher recomendações e criar um momento breve de partilha. Ao fim de um mês, alunos e docentes conversam sobre o que aconteceu. Os livros despertaram curiosidade? As recomendações ajudaram a escolher? Houve novas requisições? Quem ainda não se aproximou destas propostas?
Esta observação permite ajustar o trabalho e concretiza outra orientação do programa: acompanhar as ações e os seus efeitos, identificando o que precisa de ser melhorado.
A visibilidade ganha sentido quando abre uma possibilidade concreta: pegar num livro, ouvir uma história, pedir uma recomendação ou encontrar alguém com quem conversar. É assim que os convites à leitura podem contribuir para um ambiente leitor vivido por toda a comunidade.
Somos todos uma escola aLer mais e melhor. Que convite à leitura podemos criar em conjunto?