Livros por perto, desde o início 

[12.10.2026]

Uma criança escolhe um livro, observa a capa e procura uma história que já conhece. Outra percorre as imagens e inventa o que as personagens poderão estar a dizer. Ao lado, um adulto lê em voz alta, escuta uma pergunta e volta à página anterior. A relação com a leitura começa nestes encontros, muito antes de a criança conseguir ler autonomamente. 

O contacto precoce com os livros exige um lugar no quotidiano das crianças: no jardim de infância, na biblioteca e em casa. Para isso, são necessários livros disponíveis, oportunidades frequentes de os explorar e adultos que leiam com as crianças, acolhendo a sua curiosidade e participação. 

As Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar reconhecem que a aprendizagem da linguagem oral e escrita começa antes do ensino formal. Destacam o papel dos livros na descoberta do prazer da leitura, no desenvolvimento da sensibilidade estética e na construção do desejo de aprender a ler. Ouvir histórias, observar ilustrações, recontar e conversar são experiências que integram este percurso (Silva et al., 2016). 

Livros que fazem parte da sala 

A existência de livros nas salas de jardim de infância permite que o encontro com a leitura aconteça em diferentes momentos do dia. Uma história pode acompanhar uma conversa, um livro informativo pode ajudar a responder a uma pergunta e um álbum pode ser escolhido apenas pelo prazer de voltar às suas imagens. 

As Orientações Curriculares valorizam a disponibilização de materiais de leitura de qualidade, a possibilidade de escolha pelas crianças e a integração regular da leitura em experiências significativas (Silva et al., 2016). Na organização da sala, estas orientações podem traduzir-se numa área acolhedora, com livros ao alcance das crianças, capas visíveis e espaço para explorar a sós, com outra criança ou com um adulto. 

Importa cuidar da diversidade: histórias, poesia, álbuns sem palavras e livros que ajudem a conhecer o mundo. Uma coleção deve ser renovada ao longo do ano, mantendo algumas obras de que as crianças gostam particularmente. A biblioteca escolar, em articulação com os educadores, deve apoiar a seleção e a circulação dos livros, ampliando as possibilidades de escolha em cada sala.

Ter livros disponíveis e proporcionar tempo para os explorar são decisões que se complementam. A presença do adulto dá vida a essa disponibilidade: lê, mostra o seu interesse, ajuda a descobrir uma obra e escuta aquilo que a criança encontra nela. 

Livros que chegam a casa 

O incentivo à leitura em família precisa de condições concretas. Nem todas as famílias dispõem de livros para crianças ou conseguem renovar as suas escolhas. O empréstimo domiciliário pode alargar esse acesso e dar continuidade, em casa, às descobertas feitas no jardim de infância. 

Uma meta-análise de 44 estudos sobre programas de oferta de livros às famílias encontrou efeitos positivos no ambiente de literacia familiar e nas competências e comportamentos relacionados com a leitura. Embora estes resultados não avaliem diretamente o empréstimo domiciliário a partir da biblioteca escolar, reforçam a importância de facilitar o acesso aos livros desde cedo (de Bondt, Willenberg e Bus, 2020).

Neste sentido, propõe-se um empréstimo regular, simples e acessível a todas as crianças. A escolha pode ser feita com o apoio do educador ou do professor bibliotecário, valorizando os interesses de cada uma. Prazos ajustados às rotinas familiares, possibilidade de renovação e orientações claras sobre o cuidado dos livros ajudam a tornar este serviço fácil de utilizar. 

O livro levado para casa pode ser acompanhado por um convite breve: «Descubram esta história em conjunto.» Uma sugestão de conversa ou de exploração das imagens poderá apoiar a família, preservando a liberdade de encontrar a sua própria forma de partilha. Os roteiros do projeto LER fora da escola, em particular os da etapa Preparar, destinada à educação pré-escolar, podem apoiar este acompanhamento, oferecendo propostas simples e flexíveis para explorar livros, conversar sobre histórias e brincar com a linguagem em família.

Ler em família: tempo de encontro 

Na leitura partilhada, o adulto e a criança constroem juntos a experiência do livro. Há palavras para escutar, imagens para observar, perguntas inesperadas e ligações à vida quotidiana. A criança pode comentar, antecipar, apontar um pormenor ou pedir que se repita uma passagem.

Uma revisão sistemática e meta-análise de 19 estudos experimentais, envolvendo crianças entre um e seis anos, identificou efeitos positivos de intervenções que apoiavam os adultos na leitura partilhada de álbuns sobre a compreensão e a expressão da linguagem das crianças. Encontrou também melhorias na capacidade dos adultos para partilhar livros. Estes resultados sublinham o valor de apoiar as famílias na interação em torno da leitura (Dowdall et al., 2020).

Esse apoio pode começar com gestos simples: mostrar como se dá tempo à criança para observar, como se acolhem os seus comentários ou como uma pergunta pode abrir uma conversa. Sessões breves com famílias, momentos de leitura no jardim de infância e sugestões partilhadas pela biblioteca podem dar confiança a quem sente maior dificuldade. 

Cada família encontrará momentos e formas de ler que se ajustem ao seu quotidiano. Importa valorizar essa diversidade, incluindo as línguas usadas em casa e diferentes possibilidades de participação. A proposta é criar uma rotina agradável e possível, em que o livro seja motivo de proximidade. 

É também esta a perspetiva do projeto LER fora da escola, que aproxima biblioteca, docentes e famílias e disponibiliza propostas simples e flexíveis para integrar os livros, a leitura e a conversa na vida quotidiana (Rede de Bibliotecas Escolares, s.d.). 

Alargar o acesso, desde o jardim de infância 

O reforço do acesso aos livros na educação pré-escolar ganha expressão em novas iniciativas promovidas pelo Departamento de Promoção da Leitura do EduQA. 

O Plano Nacional de Leitura abriu as candidaturas à primeira edição do projeto + Livros no Jardim de Infância, que decorrem de 6 a 16 de outubro de 2026. Destinado aos jardins de infância autónomos da rede pública de Portugal Continental, o projeto prevê a atribuição de 300 euros por sala aos estabelecimentos selecionados, para aquisição de livros. 

Por sua vez, a Rede de Bibliotecas Escolares vai incluir, na candidatura de 2027 (a abrir a 26 de outubro de 2026), a instalação de bibliotecas em jardins de infância isolados. A RBE já abrange a educação pré-escolar nas escolas básicas que integram jardins de infância; este alargamento permitirá chegar também às crianças que frequentam estabelecimentos onde funciona exclusivamente este nível de educação.

Estas iniciativas criam condições para que mais crianças tenham mais livros por perto desde cedo. Cabe às equipas educativas dar continuidade a esse investimento, através da leitura quotidiana, da exploração livre dos livros, do empréstimo domiciliário e do envolvimento das famílias em experiências de leitura partilhada. 

Garantir livros nas salas, fazê-los circular até às famílias e apoiar a leitura partilhada são formas concretas de cuidar do início deste percurso. 

 

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