por Elvira Rodrigues, professora bibliotecária do AE Abel Salazar, S. Mamede Infesta, Matosinhos
Há momentos na vida que nos transformam para sempre.
O dia 23 de novembro de 2023 foi um desses momentos.
Nesse dia, sofri um acidente em serviço que quase me roubou a vida e que me afastou, durante vários meses, da atividade profissional.
Foi nesse tempo de silêncio, de reflexão e de reconstrução que senti ter chegado o momento de abandonar as «roupas usadas» de que nos fala Fernando Pessoa.
Munida da formação em Gestão de Bibliotecas Escolares e após trinta e quatro anos de serviço na Escola Secundária Augusto Gomes, tomei uma decisão que nunca antes imaginara: concorrer ao concurso externo para professora bibliotecária. E essa decisão conduziu-me ao Agrupamento de Escolas Abel Salazar.
Abracei este novo desafio com um entusiasmo difícil de descrever. Apesar das minhas seis décadas de vida — ou talvez precisamente por causa delas — sentia que ainda tinha muito para aprender, descobrir e construir. Embora mantivesse, há vários anos, uma estreita ligação às bibliotecas escolares e aos seus projetos, nunca tinha desempenhado formalmente funções como professora bibliotecária. Também nunca tinha trabalhado num agrupamento de escolas. Toda a minha carreira tinha sido construída em estabelecimentos de ensino não agrupados. Tudo era novo. Tudo representava uma descoberta.
À exceção da turma de História que lecionei, todo o restante universo profissional se revelou um fascinante território por explorar: um mundo repleto de desafios, aprendizagens, novidades, algumas angústias e muitas emoções. Mas, desde o primeiro momento, senti que pertencia àquela comunidade.
As bibliotecas da Escola EB 2/3 Maria Manuela de Sá e das escolas EB1 da Ermida e Padre Manuel de Castro tornaram-se espaços privilegiados de crescimento pessoal e profissional.
Nas escolas do 1.º ciclo descobri, entre sorrisos e gargalhadas, que me tinha transformado na «Euvira», fruto das naturais dificuldades das crianças em pronunciar o meu nome. Aprendi a receber abraços espontâneos, beijos inesperados e «xis» carregados de ternura. Com as educadoras, rapidamente percebi que, em conjunto, podíamos voar mais longe e dar asas à imaginação.
Com as colegas do 1.º ciclo nasceram projetos, ideias e desafios que foram crescendo naturalmente. Apesar das reduzidas equipas das bibliotecas escolares, as pontes foram sendo construídas com simpatia, empatia, simplicidade e espírito de colaboração.
Também nos 2.º e 3.º ciclos encontrei colegas capazes de acreditar que vale a pena inovar, arriscar e fazer diferente. E nasceram inúmeras iniciativas: a criação das redes sociais das bibliotecas escolares, os textos para a newsletter, as Comunidades de Prática em contexto e para o contexto, a Academia Digital para Pais, a participação no Concurso Local de Leitura, no «Miúdos a Votos», os encontros com autores, as exposições, as atividades de promoção da leitura e tantos outros projetos que deram vida às bibliotecas e reforçaram a sua presença na comunidade educativa.
Foi igualmente gratificante sentir o envolvimento dos pais e encarregados de educação, tantas vezes presentes de forma voluntária, generosa e empenhada.
Ao longo deste ano letivo, em muitas conversas com pessoas que me conhecem há décadas, fui ouvindo uma observação que inicialmente me surpreendeu, mas que acabei por reconhecer como verdadeira: eu tinha-me redescoberto na profissão.
Depois de uma vida dedicada ao ensino da História e à investigação — paixões que continuam profundamente vivas em mim — descobri uma nova forma de ser professora. Percebi que a função de professora bibliotecária não substituiu nada daquilo que fui. Pelo contrário, completou-me. Trouxe novas dimensões à minha forma de ensinar, de aprender, de criar e de me relacionar com os outros.
Mas a verdadeira essência de tudo isto foram os alunos. Foram eles a razão de cada desafio aceite, de cada atividade construída, de cada projeto sonhado. Foram os seus sorrisos, as suas perguntas, a sua curiosidade e a sua capacidade de nos surpreender diariamente que deram sentido a cada hora de trabalho.
Recordo frequentemente as palavras do Diretor do Agrupamento de Escolas Abel Salazar, o professor Rúben Pereira, na receção de início do ano letivo, quando destacou a importância do reconhecimento numa comunidade educativa. O reconhecimento encontra-se na liberdade para criar… É oportunidade… É pertença…
E foi precisamente isso que encontrei neste percurso: a oportunidade de recomeçar, de crescer e de escrever uma nova página da minha história.
Elvira Rodrigues, S. Mamede Infesta, Matosinhos.
Agrupamento de Escolas Abel Salazar
