Escrita autêntica na era da IA 

[30.09.2026]

por Jen Roberts* 

A colaboração e a possibilidade de escolha podem ajudar os alunos a aprender os fundamentos da boa escrita sem dependerem da inteligência artificial. 

Os professores enfrentam um novo desafio: conceber ou reformular o ensino da escrita tendo em conta a existência da inteligência artificial (IA) generativa. Podemos, naturalmente, incluir nos programas das disciplinas uma regra que proíba o uso da IA na escrita. Podemos recordar aos alunos as regras de integridade académica e avisá-los de que poderão ter zero nos trabalhos. No entanto, tenho obtido melhores resultados ao alterar algumas das minhas práticas de ensino, dando prioridade a atividades que conduzem naturalmente a uma escrita mais autêntica. 

Cinco estratégias para promover uma escrita autêntica entre os alunos 

Embora a IA tenha trazido uma atenção renovada à importância da escrita autêntica, levar os alunos a expressar a sua própria voz e perspetiva nos trabalhos escritos sempre foi um princípio fundamental do ensino da escrita. Estas são algumas das estratégias que estão a resultar bem nas minhas aulas. 

1. Grupos de escrita. 

Comece por tornar a revisão entre pares uma prática habitual nas suas aulas. Um processo estruturado de comentários entre colegas, quer seja uma prática contínua, quer constitua uma etapa de todos os trabalhos de escrita mais extensos, beneficia os alunos de várias formas e merece ser adotado por si só. 

Trabalho com grupos de escrita há anos, mas descobri recentemente que também ajudam a desencorajar o recurso à IA generativa. Quando os alunos sabem que vão partilhar os seus textos com os colegas, discuti-los e receber críticas construtivas, escrevem os seus próprios rascunhos. Até agora, nunca vi um aluno tentar apresentar aos colegas um texto gerado por IA como se fosse seu. Quando revejo um trabalho e encontro muitos comentários úteis dos colegas, considero isso mais um indício da autenticidade da escrita. 

O tempo dedicado aos grupos de escrita também me permite perceber quais são os alunos que ainda não têm um rascunho para partilhar. São alunos com maior risco de recorrer a práticas academicamente desonestas. Quando um aluno tem dificuldades numa tarefa de escrita, é mais provável que tente resolvê-la recorrendo indevidamente à IA generativa. Os alunos que não cumprem o prazo de entrega do rascunho para o grupo precisam de mais apoio e de uma intervenção direta o mais depressa possível. 

2. Escrita colaborativa. 

Escrever com um colega é muitas vezes mais exigente do ponto de vista intelectual do que escrever sozinho. Também proporciona apoio durante o processo e reflete a forma como muitos adultos escrevem em contexto profissional. Praticamente qualquer género de escrita escolar pode ser trabalhado em equipa: ensaios, contos, relatórios de experiências, artigos de opinião e trabalhos de investigação são boas opções para projetos de escrita colaborativa. 

Tenho constatado que os meus alunos escrevem coisas muito boas quando trabalham a pares. Quando os alunos do último ano estudam Hamlet, escrevem uma cena em que duas personagens atuais discutem a peça, em vez de um ensaio. Já os alunos do 9.º ano escrevem sobre as redes sociais quando estudamos literacia digital. Ao trabalharem juntos num texto, os dois alunos têm de discutir o conteúdo e tomar decisões em conjunto. Isso torna o processo de escrita mais complexo, do ponto de vista cognitivo, para ambos. 

Além disso, posso ouvir as suas conversas. Costumo deixar que os alunos escolham com quem querem trabalhar, porque pretendo que se sintam à vontade uns com os outros. Por vezes, peço-lhes que façam rascunhos individuais e depois sintetizem e combinem as suas ideias; noutras ocasiões, escrevem juntos desde o início. A parceria com um colega é, por si só, motivadora: gostam de conversar sobre o trabalho que estão a fazer. A taxa de entrega também aumenta, porque se sentem responsáveis um perante o outro. E, para ser sincera, também é agradável ter apenas metade dos trabalhos para avaliar.

3. Dar possibilidade de escolha. 

Tenho reparado que os alunos são mais propensos a usar a IA quando não se sentem pessoalmente envolvidos na tarefa. Se não lhes interessa o que o texto diz, por que haveriam de fazer o esforço de o escrever? Quando podem escolher o tema, envolvem-se muito mais no conteúdo que produzem. Permitir-lhes escrever sobre assuntos pelos quais já se interessam dá origem a textos melhores e mais autênticos. 

Por exemplo, todos os anos os meus alunos escolhem uma notícia para acompanhar. Selecionam o tema no outono e, em vários momentos ao longo do ano, apresentam a evolução do assunto. Os temas vão de grandes acontecimentos internacionais a notícias da cultura popular. A minha única exigência é que escolham algo que lhes interesse. Os relatórios e as apresentações revelam sempre a sua voz, as suas opiniões e o trabalho de pesquisa que realizaram, porque o tema lhes importa. 

4. Conteúdos originais. 

A minha escola tem a sorte de dispor de um espaço que usamos como galeria de arte. No segundo semestre, os alunos de artes expõem os seus melhores trabalhos, e levo sempre as minhas turmas a visitar a exposição. Durante a visita, cada aluno escolhe duas obras, inteiramente originais, e toma notas sobre elas. Depois, escreve um breve ensaio comparativo. Mesmo a ferramenta de IA mais atualizada desconhece as obras criadas pelos alunos da minha escola. Assim, posso mostrar que conceitos como atmosfera, simbolismo e tema se aplicam tanto à literatura como à arte, ao mesmo tempo que lhes dou um objeto de escrita autêntico. 

5. Rever um texto gerado por IA. 

A minha ideia mais recente para promover a escrita autêntica foi dar aos alunos um rascunho da tarefa gerado por IA, pedir-lhes que alterassem pelo menos 50% do texto e que acrescentassem elementos retirados das leituras feitas na disciplina. Pedi-lhes ainda que inserissem pelo menos cinco comentários a explicar o que tinham alterado e porquê. A tarefa resultou muito bem. Os alunos experimentaram um processo de escrita diferente, refletiram de forma produtiva sobre o que manter e o que mudar e passaram a compreender melhor as fragilidades que um texto gerado por IA pode apresentar. 

Ao integrar regularmente grupos de escrita, colaboração entre colegas, possibilidade de escolha e conteúdos originais no ensino da escrita, consegui levar os meus alunos a realizarem mais trabalhos autênticos e reduzir a probabilidade de pensarem em entregar textos gerados por IA. Pedir-lhes que partissem de um rascunho gerado por IA foi uma medida de recurso para evitar que, no final do semestre, alguns entregassem à última hora um trabalho que não tinham escrito. Acabou, porém, por resultar ainda melhor do que esperava. Estas estratégias estão a conduzir gradualmente os meus alunos a práticas de escrita autêntica e a ajudá-los a desenvolver as suas competências. Assim, terão ainda menos vontade de apresentar como seu um texto escrito por IA generativa.

 

* Jen Roberts 

É professora de inglês do ensino médio, certificada pelo Conselho Nacional de Professores (National Board Certified English Teachers), com mais de 25 anos de experiência lecionando Língua Inglesa e Ciências Sociais para alunos do 7º ao 12º ano. Ela é coautora do livro "Power Up: Making the Shift to 1:1 Teaching and Learning" e é uma Inovadora Certificada pelo Google for Education desde 2011. Os seus interesses incluem o ensino da alfabetização e o uso da tecnologia para tornar seu ensino mais eficiente e eficaz. Ela mantém um blog no LitandTech.com. 

Este artigo foi traduzido pela RBE com autorização da Edutopia. 

Roberts, J. (2025, 25 de fevereiro). Authentic writing in the age of AI. Edutopia. https://www.edutopia.org/article/teaching-authentic-writing-age-ai  

Por se tratar de uma tradução que careceu de autorização, todos os direitos desta publicação estão reservados. 

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