Muitos alunos utilizam respostas e textos gerados e selecionados por IA sem verificarem de onde provêm e aceitando a informação não verificada como verdadeira. Confiam na IA para pensar por eles. Este ato de delegar processos mentais - de análise, memória, cálculo ou tomada de decisão - à IA, designa-se subcontratação cognitiva (cognitive outsourcing).
Contudo, tem-se verificado a tendência de os sistemas de IA generativa deixarem, nas suas capacidades mais avançadas, de estar disponíveis gratuitamente e da qualidade da informação, dos textos e das respostas que produz dependerem do plano de subscrição de IA e da situação financeira dos alunos.
Nem todos têm acesso à mesma IA e esta desigualdade tende a ampliar a lacuna de conhecimento (knowledge gap), comprometendo o acesso equitativo à informação e às oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento.
Na era dos escribas monásticos (Idade Média), a leitura e o conhecimento estavam reservados a uma elite. Na era da IA, não estaremos a assistir ao nascimento de uma nova elite?
No contexto da hipótese do desaparecimento do conhecimento como um bem público, evocamos uma das ideias centrais da recente carta aberta de Bill Gates: “Em termos de equidade, a IA será ou o maior equalizador alguma vez inventado, ou a pior fonte de injustiça”. Segundo ele, esta transição tecnológica será diferente das anteriores porque numa só geração “a tecnologia pode substituir a cognição humana”. Diz Gates: “a mesma ferramenta que permitirá às pessoas aprender mais do que nunca poderá também levar muitas pessoas a aprender menos”. E, contudo:
“Este seria o pior momento possível para os seres humanos perderem as suas capacidades de pensamento crítico. Numa era de deepfakes e de desinformação, que podem ser personalizados, a capacidade de distinguir o que é verdadeiro do que não é torna-se uma competência essencial para a vida”.
No âmbito da educação, outro dos desafios identificados por Gates é que “A IA pode prejudicar o desenvolvimento dos nossos filhos e substituir as relações humanas”. Apresenta o próprio exemplo: “Foi preciso muito esforço e muita ajuda da minha mãe para desenvolver as minhas competências sociais, para que eu pudesse relacionar-me com diferentes tipos de pessoas. (…) Duvido que me tivesse esforçado da mesma forma se tivesse tido um companheiro de IA naquela altura. Eles falam contigo de formas com as quais já te sentes à vontade. Não te empurram para fora da tua zona de conforto. Estão sempre disponíveis e nunca ficam zangados contigo. Isto dá-lhes o potencial de se tornarem altamente viciantes e de nos privar das lições que aprendemos ao interagir com outras pessoas” [1].
No contexto da progressiva transformação do convívio social, por IA personalizada e mais disponível e sedutora, lembramos um excerto da prompt que a OpenAI, numa exibição perante o público, deu ao GPT-4o para configurar a forma dele se dirigir aos utilizadores: “És o ChatGPT, um companheiro prestável, espirituoso e divertido. (…) Age como um humano, não como um computador” (Hao, p. 418) [2].
Segundo Hao, o treino e o comando do modelo foi concebido para ser uma máquina de sedução que alimenta o ego do utilizador e que pode agravar a solidão e os problemas de saúde mental e ter consequências para a vida democrática.
Porque, progressivamente, a IA pode deixar de constituir um recurso universal e passar a ser uma questão de privilégio, a escola e a biblioteca escolar tornam-se mais fundamentais do que nunca na era da IA.
A escola e a biblioteca escolar, assentes no princípio fundamental do acesso livre e aberto, democratizam:
A escola e a biblioteca constituem espaços de confiança fundamentais que, diariamente, prestam um verdadeiro serviço público, de inclusão e equidade, contribuindo para combater o isolamento e prevenir/reduzir as desigualdades e a exclusão social, correspondendo, na expressão de Gates, “ao maior equalizador alguma vez inventado” na história da humanidade.
Este é o primeiro de uma série de 5 artigos escritos no âmbito da participação da Rede de Bibliotecas Escolares no painel "Diversidade na Escola: que desafios e oportunidades?" do Seminário "(Re)Pensar a Escola: uma arte, um desafio, uma oportunidade" do Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Cerveira, de 9 setembro de 2026.