Escolher livros, construir bibliodiversidade

No dia 21 de setembro, assinala-se o Dia Internacional da Bibliodiversidade. A data convida-nos a pensar na diversidade dos livros que se publicam, circulam e chegam aos leitores. Para quem trabalha numa biblioteca escolar, o tema conduz inevitavelmente a uma pergunta: que coleção estamos a colocar ao alcance dos nossos alunos?

Talvez valha a pena começar por uma distinção. Uma coleção grande não é necessariamente uma coleção diversa. Podemos ter milhares de documentos e encontrar, repetidamente, os mesmos autores, as mesmas editoras, os mesmos temas, as mesmas perspetivas e formas muito semelhantes de contar e representar o mundo.

A bibliodiversidade não se mede apenas pelo número de títulos disponíveis. Reconhece-se na pluralidade de vozes, origens, géneros, formatos, linguagens, estéticas e experiências que a coleção oferece. Encontra-se nos livros de editoras com grande circulação, mas também nos catálogos de pequenas editoras e projetos independentes; nas obras mais procuradas pelos alunos, mas também naquelas que dificilmente descobririam sem a intervenção da biblioteca.

Construir bibliodiversidade é, por isso, fazer escolhas conscientes. E escolher nunca é um gesto neutro: aquilo que adquirimos ganha a possibilidade de ser descoberto; aquilo que não procuramos pode permanecer invisível.

Comece por olhar para o que já tem

Antes de pensar em novas aquisições, olhe com atenção para a coleção. Não apenas para os números globais ou para a distribuição pelas classes da CDU, mas para os livros que efetivamente a constituem.

Que autores estão representados? De que países e culturas provêm? Que editoras publicaram esses livros? Há espaço para a poesia, o teatro, a banda desenhada, o álbum ilustrado, o livro informativo, a narrativa gráfica e o livro sem palavras? Existem diferentes formas de abordar os mesmos temas? Que vozes aparecem no centro das histórias? E quais estão ausentes?

Observe também as personagens e os mundos representados. As crianças e os jovens encontram diferentes configurações familiares, culturas, corpos, condições sociais, modos de viver e formas de pensar? Essa diversidade surge com naturalidade em toda a coleção ou está confinada a um pequeno conjunto de livros adquiridos especificamente para trabalhar a inclusão?

Este olhar pode revelar desequilíbrios que os dados quantitativos não mostram. Uma área aparentemente bem preenchida pode estar desatualizada, depender excessivamente de uma única coleção editorial ou apresentar sempre a mesma perspetiva. Pelo contrário, uma pequena seleção bem construída pode abrir caminhos de leitura muito diferentes.

Não deixe que a atualidade escolha por si

As novidades editoriais, os livros mais vendidos e os títulos que circulam nas redes sociais fazem parte do universo dos leitores e não devem ser ignorados. Muitos podem constituir excelentes portas de entrada para a leitura.

Mas, se a seleção depender apenas da visibilidade comercial, a coleção tenderá a reproduzir o que já ocupa mais espaço no mercado. Os mesmos autores e títulos aparecerão nas montras, nas listas de vendas, nas recomendações automáticas e, por fim, nas estantes da biblioteca.

O papel do professor bibliotecário não é contrariar sistematicamente as preferências dos alunos. É alargá-las. Ao lado do livro que todos pedem, pode estar outro que dialoga com ele, apresenta uma perspetiva diferente ou convida a experimentar uma linguagem menos familiar. A coleção deve acolher o que os leitores já procuram, mas também criar condições para descobrirem aquilo que ainda não sabem que lhes pode interessar.

Por isso, diversifique as fontes que consulta. As orientações e recomendações do Plano Nacional de Leitura, bem como as obras, autores, editoras e projetos divulgados pela Rede de Bibliotecas Escolares, constituem referências importantes para apoiar a seleção. Articule-as com o acompanhamento de diferentes editoras, livrarias, revistas, prémios, festivais, bibliotecas e mediadores. Converse também com professores, famílias e alunos e procure recomendações fora dos circuitos habituais. Nenhuma fonte deve determinar, por si só, as aquisições: quanto mais limitado for o campo de pesquisa, menos diversa será, provavelmente, a coleção.

Um tema importante não é sinónimo de um bom livro

Quando escolhemos livros para crianças e jovens, é fácil deixarmo-nos convencer pela relevância do tema. Por vezes procuramos obras sobre amizade, ambiente, emoções, igualdade, cidadania, saúde ou segurança e partimos do princípio de que a pertinência da mensagem garante a qualidade do livro.

Nem sempre é assim.

Um tema necessário pode dar origem a uma obra literariamente frágil, excessivamente explicativa ou construída apenas para transmitir um ensinamento. Quando a mensagem ocupa todo o espaço, pouco resta para a imaginação, para a ambiguidade e para a participação do leitor.

Pergunte não apenas sobre o que é o livro, mas também como está construído. A linguagem é cuidada? A narrativa surpreende ou limita-se a conduzir a uma conclusão previsível? As personagens têm espessura ou servem apenas para ilustrar um comportamento? O livro respeita a inteligência do leitor? Deixa perguntas em aberto?

Um bom livro pode ajudar a compreender o mundo sem o reduzir a uma lição. Pode ensinar sem explicar tudo, porque permite sentir, imaginar, estranhar, rir, discordar e pensar.

Repare na relação entre texto e imagem

Nos livros ilustrados, a qualidade não reside apenas nas palavras. As imagens podem acrescentar informação, introduzir humor, criar tensão, sugerir outros sentidos ou até contrariar aquilo que o texto afirma.

Vale a pena observar se as ilustrações participam verdadeiramente na construção da narrativa ou se apenas repetem o que já está escrito. Veja como são utilizadas a cor, a perspetiva, a sequência, a composição da página e a passagem de uma imagem para a seguinte. Pergunte o que o leitor descobre quando olha demoradamente e o que perderia se visse apenas o texto.

Observe também as representações visuais. As personagens são apresentadas de forma individualizada e complexa ou reproduzem estereótipos? Certas culturas, profissões, famílias ou características físicas aparecem sempre associadas aos mesmos papéis? A qualidade estética e a diversidade de estilos de ilustração também fazem parte da bibliodiversidade.

Não simplifique excessivamente em nome da idade

As indicações etárias são úteis, mas não devem transformar-se em fronteiras rígidas. Crianças e jovens da mesma idade têm experiências, interesses, competências e percursos leitores diferentes. Um livro aparentemente simples pode proporcionar leituras muito ricas; outro, recomendado para determinada faixa etária, pode não despertar qualquer interesse naquele grupo concreto.

Também não é necessário eliminar todas as palavras desconhecidas, estruturas complexas ou referências que o leitor ainda não domina. Pelo contrário, a literatura amplia o vocabulário e o repertório cultural precisamente porque oferece mais do que aquilo que já se conhece.

Escolher com qualidade implica confiar nos leitores, sem deixar de assegurar os apoios de que necessitam. Uma leitura partilhada, uma conversa ou uma boa mediação podem tornar acessível uma obra que, à primeira vista, parecia exigente. Isso é diferente de oferecer apenas textos simplificados, previsíveis e semelhantes entre si.

Procure qualidade em diferentes formatos

A diversidade não se limita à literatura. Uma coleção bibliodiversa inclui obras de ficção e não ficção, em suportes e formatos distintos, capazes de responder a diferentes interesses e formas de ler.

Nos livros informativos, confirme a atualidade, o rigor e a identificação das fontes. Observe se a organização facilita a consulta sem fragmentar excessivamente o conhecimento. Verifique se texto, imagem, gráficos e outros elementos contribuem para compreender o assunto.

Considere também audiolivros, livros digitais, edições em leitura fácil, obras em diferentes línguas, livros com características de acessibilidade e formatos adequados a leitores com necessidades específicas. A bibliodiversidade perde parte do seu sentido se a variedade existir, mas não puder ser efetivamente lida por todos.

Retirar também faz parte de cuidar

Falar da qualidade da coleção implica falar do desbaste. Um livro não deve permanecer na estante apenas porque sempre lá esteve, porque foi oferecido à escola ou porque ainda existe espaço disponível.

Documentos desatualizados, deteriorados, inadequados, com informação incorreta ou que reproduzem representações manifestamente ultrapassadas precisam de ser avaliados. O desbaste não empobrece a coleção. É um mecanismo indispensável para a tornar mais clara, coerente, atrativa e fiável.

Naturalmente, retirar não significa eliminar tudo o que pertence a outra época ou apresenta perspetivas hoje questionáveis. Algumas obras conservam valor literário, histórico ou documental e podem favorecer uma leitura contextualizada e crítica. A decisão deve considerar a qualidade, a finalidade, o público e o lugar que cada documento ocupa no conjunto da coleção.

Ouça os leitores, sem lhes entregar toda a seleção

Os alunos devem participar no desenvolvimento da coleção. As sugestões de aquisição, as reservas, os empréstimos e as conversas informais fornecem informação preciosa sobre interesses, necessidades e ausências.

Mas uma biblioteca não pode limitar-se a comprar aquilo que já é pedido. Se o fizesse, os livros mais conhecidos tornar-se-iam cada vez mais presentes e os restantes teriam poucas oportunidades de ser descobertos.

Ouvir os leitores significa considerar seriamente as suas escolhas e, ao mesmo tempo, exercer a responsabilidade profissional de lhes proporcionar novos encontros.

O equilíbrio está em articular procura e descoberta, familiaridade e novidade, liberdade de escolha e mediação.

Faça a diversidade circular

Não basta ter livros diversos no catálogo. É preciso que sejam encontrados.

Pergunte quais são os livros que permanecem nas estantes, que raramente aparecem numa mostra ou nunca são utilizados numa atividade. Talvez não tenham ainda encontrado os seus leitores. Mude-os de lugar, aproxime títulos inesperados, crie pequenas seleções, apresente autores menos conhecidos, convide alunos a recomendar descobertas e leve livros às salas de aula e a outros espaços da escola.

Garanta também que possam ser levados para casa. A circulação domiciliária dá aos leitores tempo para explorar e reler e permite que os livros entrem na vida familiar. Uma coleção cumpre plenamente a sua função quando deixa de ser apenas um conjunto organizado de documentos e passa a gerar encontros, conversas e percursos de leitura.

Uma coleção nunca está terminada

Construir bibliodiversidade não corresponde a cumprir uma lista de temas, grupos ou formatos. É um processo contínuo de observação, seleção, escuta, avaliação e renovação.

Nenhuma coleção consegue representar tudo. O importante é reconhecer que cada decisão abre determinadas possibilidades de leitura e deixa outras de fora. Essa consciência ajuda-nos a procurar equilíbrios, identificar silêncios e evitar que as escolhas sejam determinadas apenas pelo hábito, pela oferta mais visível ou pelas solicitações mais imediatas.

No Dia Internacional da Bibliodiversidade, talvez o melhor exercício seja este: percorrer as estantes como se as víssemos pela primeira vez e perguntar que mundos estamos a oferecer aos leitores.

Se encontrarmos qualidade, pluralidade e espaço para a descoberta, estaremos no caminho certo. Se identificarmos ausências e repetições, teremos encontrado um bom ponto de partida para continuar a construir a coleção.

Porque escolher livros não é apenas adquirir documentos. É cuidar daquilo que cada leitor poderá encontrar, conhecer, imaginar e, um dia, escolher por si próprio.

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