A Rede de Bibliotecas Escolares participou nas 2.as Jornadas de Arte e Educação, uma iniciativa da Arte Central, que decorreu nos passados dias 3 e 4 de julho na Universidade Lusófona, em Lisboa.
Pode uma biblioteca escolar ser mais do que “o espaço dos livros”? Pode ser um lugar de criação, de encontro, de experimentação artística e de cultura? Foi precisamente esta reflexão que a Rede de Bibliotecas Escolares levou às 2.ªs Jornadas de Arte e Educação. Com a participação numa mesa-redonda, na qual se partilhou a comunicação A biblioteca escolar como lugar de educação artística: o espaço da desaceleração, da criação e do encontro, pôde demonstrar-se o papel da biblioteca escolar como centro cultural da escola e da comunidade.
Num momento em que se repensa o papel da escola na formação de cidadãos mais criativos, críticos e participativos, a intervenção da RBE reforçou esta ideia fundamental: a biblioteca escolar é um espaço vivo onde a arte acontece. É um lugar aberto à diversidade, onde convivem a literatura, as artes visuais, a dança, a música, o cinema, a ilustração, o património e tantas outras formas de expressão artística. Para além do espaço físico, a biblioteca afirma-se como um ambiente de descoberta, de criação e de participação ativa.
A perspetiva apresentada dialogou, naturalmente, com os temas centrais das Jornadas de Arte e Educação, que colocaram a criatividade, a experiência estética e a educação artística no centro das aprendizagens. Mas a sua relevância vai ainda mais longe: a proposta apresentada pela RBE evidencia uma considerável coerência entre as orientações internacionais, as políticas públicas nacionais e as práticas desenvolvidas diariamente nas bibliotecas escolares.
A proposta apresentada pela RBE encontra um sólido enquadramento nas orientações da UNESCO para a educação artística e cultural. Desde o Roteiro para a Educação Artística (Road Map for Arts Education, 2006) até ao recente Quadro para a Educação Cultural e Artística (Framework for Culture and Arts Education, 2024), a UNESCO tem defendido que a educação artística constitui um direito de todos e um elemento indispensável para o desenvolvimento integral das crianças e dos jovens. A criatividade, a participação cultural, a diversidade, o diálogo intercultural, o pensamento crítico e a aprendizagem ao longo da vida são apresentados como dimensões essenciais e pilares fundamentais na educação e na formação de cidadãos.
A biblioteca escolar concretiza estes princípios ao proporcionar oportunidades de criação e participação cultural, democratizando o acesso às artes e transformando-as numa experiência acessível a toda a comunidade educativa.
Esta visão internacional encontra expressão nas políticas educativas nacionais, nomeadamente através da estreita articulação entre a RBE, o Plano Nacional das Artes (PNA) e o Plano Nacional de Cinema (PNC).
No âmbito do PNA, o Projeto Cultural de Escola nasce, em muitas escolas, na biblioteca escolar ou é coordenado pelo professor bibliotecário, evidenciando o papel agregador da biblioteca na construção de uma estratégia cultural para toda a escola. Também aqui se destacou o alargamento à implementação do PNC, através da realização de festivais ou outras iniciativas de apropriação de linguagem cinematográfica enquanto forma de expressão artística, promovendo simultaneamente a literacia visual e o contacto com o património cinematográfico nacional e internacional.
É, porém, na dimensão local que estas orientações ganham verdadeiro significado. Os exemplos apresentados revelaram bibliotecas escolares transformadas em espaços de criação artística, onde um livro pode dar origem a uma coreografia, uma oficina de ilustração, uma exposição, um filme, um laboratório criativo ou um projeto interdisciplinar que envolve toda a comunidade educativa.
As parcerias com museus, bibliotecas, arquivos, artistas, autarquias e instituições culturais, bem como a realização de oficinas, exposições e experiências de contacto, mostram que a biblioteca escolar é hoje um verdadeiro laboratório de cultura. Um espaço onde a leitura dialoga naturalmente com todas as linguagens artísticas e onde os alunos deixam de ser apenas consumidores de cultura para se tornarem criadores e participantes ativos. Neste âmbito, apresentou-se, entre outas iniciativas, o projeto Desafi'arte, uma parceria entre a RBE e o Museu Calouste Gulbenkian, ancorada na relação de proximidade das escolas participantes e no desenvolvimento das competências para a cultura democrática.
Num tempo marcado pelo ritmo acelerado, pelas múltiplas solicitações e pelo excesso de informação, destacou-se também outra dimensão essencial da biblioteca: a da desaceleração, como referido no título da comunicação, à luz das palavras de Michèle Petit “Ler ou estar na companhia de livros serve para encontrar um outro tempo, uma suspensão.” (2020)
Um lugar onde é possível parar, observar, ler, conversar, imaginar e criar. Um espaço que convida ao encontro consigo próprio, com os outros e com a cultura, valorizando o tempo da contemplação e da experiência estética.
A participação da Rede de Bibliotecas Escolares nas 2.ªs Jornadas de Arte e Educação veio, assim, demonstrar que a biblioteca escolar é muito mais do que um centro de recursos da escola. É um espaço onde convergem orientações internacionais, estratégias nacionais e práticas locais inovadoras e se transformam em experiências concretas de aprendizagem, criação e cidadania.
Porque quando uma biblioteca acolhe a arte, transforma-se num lugar onde se aprende de forma diferente. Um lugar onde a criatividade encontra espaço para crescer, onde a cultura aproxima as pessoas e onde cada livro pode ser o ponto de partida para novas formas de olhar, sentir e compreender o mundo. É nesta convergência que reside a força da biblioteca escolar enquanto espaço de educação artística, cultural e humanista para o século XXI.
BE Escola Secundária Dr. Azevedo Neves - Amadora
Museu.exe_o golpe invisível
BE do AE São Bruno - Oeiras
CULTURA É EDUCAÇÃO