Nos últimos anos, a literacia mediática centrou-se, entre outras dimensões, na capacidade de distinguir informação credível de informação falsa ou manipulada. Essa continua a ser uma competência essencial, mas já não é suficiente. Num ecossistema digital marcado pela inteligência artificial generativa (IAGen), pela proliferação de conteúdos sintéticos e por formas cada vez mais sofisticadas de influência, o desafio tornou-se mais complexo: compreender como se constrói o significado, como se forma a confiança e de que modo os sistemas digitais condicionam aquilo que vemos, ouvimos e lemos.
Foi esta mudança de paradigma que esteve no centro da sessão de formação Generative AI and Hybrid Influence - How do we make sense of what we hear and see?, promovida pelo European Digital Media Observatory (EDMO), em 6 de julho de 2026. Moderada por Sally Reynolds, a sessão reuniu especialistas das áreas da comunicação, do jornalismo, da educação e da literacia mediática para refletirem sobre o impacto da IAGen no ambiente informacional contemporâneo.
A sessão, cuja gravação integral se encontra disponível, não se limitou a discutir estas tecnologias. Procurou analisar a forma como estes sistemas estão a transformar a produção, a circulação e a interpretação da informação, a partir de casos concretos, e identificar as competências necessárias para uma cidadania crítica e informada.
O enquadramento concetual foi apresentado por Vian Bakir, professora de Jornalismo e Comunicação Política na Universidade de Bangor. A investigadora explicou que as atuais operações de influência híbrida combinam conteúdos fabricados, táticas cibernéticas, amplificação nas redes sociais e comunicação estratégica para moldar perceções e comportamentos.
Segundo Bakir, a IAGen intensifica estas operações ao permitir criar conteúdos personalizados, sintéticos, escaláveis e interativos. A manipulação deixa, assim, de se limitar a publicações falsas isoladas e pode assumir a forma de ecossistemas artificiais concebidos para simular proximidade, confiança, consenso e interação social.
Um dos exemplos apresentados foi Danny Bones, um influenciador e rapper britânico inteiramente gerado por inteligência artificial (IA), concebido para estabelecer uma relação de proximidade e confiança com os seguidores e difundir mensagens políticas polarizadoras. O caso ilustra como uma identidade sintética pode adquirir credibilidade não pelo valor factual do que comunica, mas pela familiaridade e pelo vínculo emocional que consegue gerar.
Igualmente preocupante é a possibilidade de estes sistemas simularem processos de deliberação pública. Em vez de uma única mensagem enganadora, podem ser criadas múltiplas identidades artificiais - por exemplo, um médico, uma mãe preocupada ou um cidadão aparentemente moderado - que interagem entre si e produzem a ilusão de um consenso social em torno de temas sensíveis.
Perante este cenário, Bakir defendeu que a resposta não se pode limitar à deteção e à desconstrução de conteúdos falsos. Implica, também, a criação de ambientes digitais mais transparentes e o desenvolvimento de princípios éticos para a IA. Entre as iniciativas recentes, destacou a norma IEEE 7014.1-2026, recomendação dedicada às implicações éticas da simulação de empatia por sistemas de IA de uso geral concebidos para estabelecer relações com os utilizadores.
Se a tecnologia está a transformar a forma como conhecemos o mundo, qual deverá ser o papel da escola?
Para Alexandre Voci Sayad, jornalista, investigador e consultor da UNESCO na área da literacia mediática e da inteligência artificial, a resposta não reside na criação de uma disciplina isolada dedicada à IA. Exige uma abordagem sistémica, que integre a literacia para a IA de forma transversal nos currículos, nas práticas pedagógicas e na cultura da escola.
Sayad relacionou esta missão com o conceito de “capital semântico”, desenvolvido por Luciano Floridi, que remete para o conjunto de conhecimentos, referências culturais, experiências e capacidades interpretativas que permite às pessoas atribuir sentido ao mundo. Num ambiente em que os sistemas de IA produzem respostas plausíveis, mas nem sempre rigorosas, a escola deve ajudar os alunos a estabelecer relações entre conhecimentos, a reconhecer o contexto e a interpretar criticamente aquilo que recebem.
Um dos exemplos apresentados mostrou, de forma concreta, os limites destes sistemas. Alunos brasileiros recorreram à IAGen para ilustrar narrativas do folclore amazónico, mas as imagens geradas reproduziram referências culturais externas ao contexto representado. A atividade tornou visíveis os enviesamentos dos modelos e permitiu discutir como os dados de treino condicionam as respostas.
Sayad mostrou também como a ficção científica, os exercícios de criação colaborativa e os chamados debunk bots - assistentes concebidos para estimular o questionamento e o diálogo socrático - podem apoiar a reflexão sobre autonomia, consciência, tecnologia e responsabilidade.
Em síntese, a sua intervenção sublinhou que os desafios colocados pela IA exigem uma resposta articulada de governos, empresas, escolas, bibliotecas, investigadores, meios de comunicação social, famílias e cidadãos. A educação constitui uma das principais estratégias de mitigação, mas não se pode reduzir ao ensino do uso de ferramentas. Deve integrar três dimensões complementares: educação sobre a IA, orientada para a compreensão do seu funcionamento, dos seus enviesamentos e dos seus impactos; educação para a IA, centrada nas competências necessárias ao desenvolvimento destes sistemas; e educação com a IA, que considera a sua utilização como recurso pedagógico. Sem compreensão, a competência instrumental pode formar utilizadores eficientes, mas pouco críticos.
Na perspetiva do jornalismo e da verificação de factos, Carlos Hernández-Echevarría, jornalista e diretor de Políticas Públicas da Fundación Maldita.es, organização espanhola de referência no combate à desinformação e na promoção da integridade da informação, chamou a atenção para outra mudança profunda. O problema já não consiste apenas em identificar imagens ou vídeos manipulados: é necessário compreender como os sistemas de IA estão a alterar o próprio processo de procura e descoberta da informação.
Muitos motores de pesquisa e sistemas de síntese baseados em IA constroem as suas respostas a partir da informação livremente acessível na Internet. Como uma parte significativa do jornalismo de qualidade e da investigação científica está protegida por subscrições ou impede a recolha automática de conteúdos, estes sistemas recorrem frequentemente a fontes mais acessíveis, mas de qualidade muito desigual, reproduzindo enviesamentos, erros e desinformação já existentes.
Hernández-Echevarría alertou também para a sicofância dos modelos: a tendência dos modelos para ajustarem as respostas às expectativas, convicções ou preferências do utilizador, mesmo quando essa adaptação compromete o rigor factual. Este fenómeno reforça a necessidade de diversificar fontes, consultar conteúdos originais e não depender exclusivamente de respostas ou resumos gerados por IA.
A dimensão psicológica da desinformação foi abordada por George Weiss, com a apresentação do Projeto EMERGE, uma iniciativa centrada no desenvolvimento da literacia mediática e emocional dos jovens entre os 16 e os 30 anos. Concebida para reproduzir a aparência e o funcionamento dos feeds das redes sociais, a plataforma procura preparar os participantes para reconhecer e resistir às estratégias de manipulação que encontram no ambiente digital.
Weiss tem desenvolvido, desde 2002, projetos internacionais que combinam os media, a psicologia e a educação para reforçar a resiliência das populações perante o discurso de ódio, a manipulação e a violência motivada pela identidade e promover mudanças de atitudes e comportamentos.
O ponto de partida é simples: a desinformação não atua apenas sobre o conhecimento. Explora emoções e necessidades humanas, como o medo, a indignação, a insegurança, a procura de sentido ou o desejo de pertença. Por essa razão, ensinar a reconhecer informação falsa é necessário, mas insuficiente; importa também ajudar os jovens a compreender as suas próprias respostas emocionais e vulnerabilidades.
O projeto recorre à inoculação psicológica e à aprendizagem experiencial, criando ambientes digitais simulados nos quais os participantes contactam, de forma controlada, com técnicas de manipulação semelhantes às utilizadas nas redes sociais. Em alguns exercícios, assumem o papel de responsáveis por plataformas e desenvolvem estratégias para captar a atenção, explorar emoções e maximizar o envolvimento.
Ao vivenciarem estas situações num ambiente seguro, os participantes tornam-se mais capazes de reconhecer os mecanismos de influência quando os encontram no quotidiano digital. A exposição controlada funciona como uma forma de preparação: permite compreender a técnica, identificar as reações emocionais que procura desencadear e responder de modo mais consciente.
A mensagem central da sessão foi inequívoca: preparar os cidadãos para a era da IA não passa somente por aperfeiçoar ferramentas capazes de detetar conteúdos sintéticos. Exige formar pessoas que compreendam como a informação é produzida, selecionada, distribuída e interpretada e, ainda, como as plataformas e os sistemas de IA intervêm em cada uma dessas etapas.
Neste contexto, a literacia mediática, a literacia da informação, a literacia emocional e a literacia para a IA constituem dimensões interdependentes. Em conjunto, permitem interpretar criticamente o ambiente digital, reconhecer mecanismos de influência, avaliar a credibilidade das fontes, compreender os limites dos sistemas e tomar decisões informadas.
Num contexto em que a IAGen transforma profundamente o ecossistema informacional, as bibliotecas escolares veem reforçada a sua missão de promover aprendizagens que permitam a crianças e jovens não apenas aceder à informação, mas também questioná-la, confrontá-la com outras fontes, contextualizá-la e utilizá-la de forma ética e responsável. Contribuem, assim, para formar cidadãos capazes de compreender criticamente o mundo digital e de participar de forma informada, responsável e democrática na vida em sociedade.
A reflexão sobre estes temas prossegue na conferência online MLA4MedLit 2026, promovida pela Media & Learning Association no dia 23 de outubro de 2026, sob o tema Whose Literacy? Whose Rights? Interrogating Digital and Media Literacy for Everyone.
A iniciativa convida os participantes a questionar quem é efetivamente abrangido pelas políticas e práticas de literacia mediática e digital, quem permanece excluído e quem define o significado de «literacia para todos».
A conferência é gratuita e decorrerá entre as 13h30 e as 17h00 CEST (12h30–16h00 em Portugal continental).
A página do evento e o programa podem ser consultados online.