No dia 5 de janeiro de 2026, numa cerimónia aberta à comunidade educativa, com a presença de antigos alunos, professores, funcionários e representantes institucionais, a Escola Secundária José Saramago, Mafra, cuja fundação remonta a 1 de janeiro de 1976, iniciou as celebrações do seu 50º aniversário.
O dia ficou marcado por muitos momentos significativos, destacando-se a leitura, por vários alunos, do texto “Assim se fez uma escola”, da autoria de Maria Luísa Barros, patrona da biblioteca escolar.
Na sessão evocativa, o Diretor, Professor Pedro Liberto, sublinhou uma ideia que ecoa com particular significado para a Rede de Bibliotecas Escolares: a centralidade da leitura como condição de humanidade, de liberdade e de cidadania.
Com os votos de mais 50 anos de bom trabalho, reproduz-se abaixo o texto do diretor.
Hoje iniciamos uma celebração que não é apenas uma data no calendário. É um momento para reconhecer o caminho feito, agradecer a quem o tornou possível e renovar um compromisso com o futuro, com o futuro dos nossos alunos e da comunidade que servimos.
A nossa história tem raízes em 1970. Começa como começam as obras que valem a pena: com vontade e necessidade, com um primeiro gesto que talvez parecesse provisório e acabou por se tornar destino. Mas, como escola autónoma, começa a 1 de janeiro de 1976, há 50 anos. Depois veio um nome que nos fez mais inteiros, em 1998; veio a modernização, com as obras da Parque Escolar, em 2009–2010, trazendo espaços mais ajustados ao tempo. Mas, se eu tiver de escolher o que realmente nos trouxe até aqui, direi outra coisa: trouxe-nos a persistência diária, essa forma de heroísmo que não aparece em fotografias, mas mantém uma escola de pé.
Cinquenta anos é tempo suficiente para que as paredes ganhem memória. E, no entanto, não são as paredes que guardam o essencial: são as pessoas. Quem entra numa escola pensa que vem aprender; quem fica percebe que vem também pertencer. E uma escola, quando cumpre a sua missão, é isto: um lugar onde cada um se torna um pouco mais capaz de olhar o mundo e de o transformar com responsabilidade. É esse o caminho que o nosso novo Projeto Educativo, aprovado neste ano letivo, assume como lema: ‘Aprender para agir, agir para transformar, sem pressa, mas sem perder tempo.’”
Para muitos dos que estão hoje connosco, antigos alunos, antigos professores, antigos funcionários, esta escola foi, durante décadas, simplesmente o Liceu: a casa onde, num concelho inteiro, se aprendia a atravessar a adolescência com livros, descobertas e futuro. Para os que hoje a habitam, esta escola é, com uma proximidade que só existe quando há afeto, “a Saramago”, como carinhosamente é tratada por toda a comunidade educativa, e dizer “a Saramago” é dizer uma identidade que não é apenas um nome: é um modo de estar, uma exigência, uma inquietação boa.
Em 1998, quando a escola ganhou o patrono que hoje nos acompanha, não ganhou apenas uma placa com letras. Ganhou um nome que nos obriga — e um espelho que nos inquieta. Um desses espelhos que não servem para nos admirarmos, mas para nos perguntarmos: que tipo de pessoas queremos formar? Que tipo de comunidade queremos merecer? Uma escola com este nome não tem o direito de adormecer por dentro. Tem o dever de ensinar a ler, sim, a ler livros e a ler o mundo e de formar cidadãos críticos, humanistas, capazes de discernir num tempo em que a informação corre depressa e a desinformação corre ainda mais.
No Memorial do Convento, Blimunda prometeu a Baltazar que nunca o olharia por dentro. A nossa escola, pelo contrário, faz o gesto inverso: olha-nos por dentro quando chegamos. Eu próprio cheguei aqui em 1993 e fui olhado por dentro. E, quando isso acontece, há uma espécie de pertença que se instala sem pedir licença: fica em nós, mesmo quando saímos. Mas esta casa não marcou apenas a minha vida. Marcou muitas das vidas que hoje aqui estão e continuará a marcar outras, enquanto houver alunos a entrar por estas portas e gente disposta a ensinar e a não desistir.
Porque uma escola não se faz apenas de inaugurações: faz-se de madrugadas e de corredores, de horários apertados e de mãos estendidas, de perguntas repetidas até fazerem sentido. Faz-se de quem abre portas, liga luzes, prepara salas, atende, organiza, resolve, cuida e muitas vezes cuida sem ser visto. Daqui a pouco, quando homenagearmos os funcionários mais antigos, peço que sintam esse momento como uma verdade simples: uma escola agradece-se. E agradece-se em voz alta, para que o silêncio não pareça esquecimento.
Agradece-se também aos professores, que vivem entre o rigor e a esperança. Ensinar é uma profissão que exige duas coisas difíceis: saber e recomeçar. Recomeçar quando o aluno não veio bem, quando a vida se atravessou, quando o mundo lá fora grita mais alto do que o livro aberto. Recomeçar sem desistir do que acreditamos: que cada aluno pode mais do que pensa.
E agradece-se, claro, aos alunos, aos de hoje e aos de ontem. Porque uma escola não é um edifício: é uma sucessão de rostos que passam e deixam rasto. Há alunos que nos dão alegria imediata; há alunos que nos dão trabalho; e há alunos que, sem o saberem, nos dão uma lição inteira apenas por insistirem em existir no meio das dificuldades. Uma escola pública serve precisamente para isto: para não deixar ninguém para trás, para dar lugar à diferença, para fazer da equidade uma prática e não um slogan.
Quando falamos de futuro, falamos de inovação, sim, mas falamos sobretudo de sentido. A tecnologia pode ampliar, mas não substitui o essencial: o encontro entre quem ensina e quem aprende. O futuro vale se for humano: se abrir portas a percursos mais competentes, mais justos, mais ligados ao mundo real e, ao mesmo tempo, mais éticos.
E falamos também de leitura. Porque uma escola que lê é uma escola que respira melhor. Ler é um ato silencioso, mas é também um ato de liberdade. E liberdade, numa escola, não é fazer o que apetece; é aprender a escolher com consciência, a argumentar, a respeitar, a participar. É construir cidadania no quotidiano, nas salas, nos projetos, no desporto, na cultura, no cuidado com o outro.
Daqui a pouco, nesta cerimónia, vamos escutar palavras, vamos revisitar memórias, vamos dar voz aos alunos. E essa é uma verdade que eu gostaria de sublinhar: uma escola faz-se assim, com muitos. Com o talento de alguns, sim, mas com a presença de todos.
E, para ancorarmos isto num lugar concreto, num lugar que é nosso, deixem-me recordar a frase que nos recebe todos os dias no átrio, nas palavras do nosso Patrono: “Sempre chegamos ao sítio onde nos esperam.” Talvez seja por isso que estamos hoje aqui. Porque esta escola nos esperava, quando chegámos pela primeira vez, quando recomeçámos, quando precisámos e quando voltámos.
Por isso, ao abrirmos hoje as comemorações, não fiquemos apenas a olhar para trás com orgulho, embora o orgulho seja justo. Olhemos para trás para ganhar ânimo, e para a frente para ganhar propósito. Porque o cinquentenário não é um fim: é uma passagem.
Uma passagem que nos pergunta: que escola queremos ser nos próximos anos? E a resposta, se for verdadeira, terá de caber em coisas concretas, mesmo quando as dizemos de forma simples: continuar a melhorar aprendizagens; continuar a reforçar sucesso com qualidade; continuar a cuidar do bem-estar e da convivência; continuar a trabalhar em equipa; continuar a envolver famílias; continuar a abrir portas à comunidade; continuar a preparar jovens para um mundo complexo e incerto, sem lhes roubar a esperança.
Daqui a pouco iremos assinalar este cinquentenário com um gesto simbólico: o descerrar da placa comemorativa. É um momento bonito, mas o que realmente fica não é o que se inaugura: é o que se escreve nas pessoas. E se, ao longo destes 50 anos, esta escola ajudou milhares de pessoas a escrever páginas bonitas na sua vida, então valeu a pena. E vale, ainda, a pena.
Termino com um convite simples, que é também um compromisso. Quando visitarem as exposições, quando ouvirem as histórias, quando virem fotografias antigas, não pensem apenas “como éramos”. Perguntem também “como queremos ser”. E, sobretudo, perguntem, cada um à sua escala, cada um no seu lugar, “o que posso eu fazer, a partir de amanhã, para que esta escola continue a honrar o seu nome e o serviço que presta à sua comunidade?”
Cinquenta anos depois, estamos aqui. Com memória, com trabalho, com futuro.
Não tenhamos pressa. Mas não percamos tempo.