
A 14 de novembro de 2013, o diário francês Libération publicou uma edição sem fotografias. No lugar das imagens habituais, surgiam espaços em branco. A iniciativa pretendia chamar a atenção para a importância da fotografia no jornalismo e para as dificuldades enfrentadas pelos fotojornalistas, incluindo os que trabalham em zonas de guerra e outros locais perigosos, muitas vezes em condições profissionais e económicas difíceis.
Na edição seguinte, a jornalista Brigitte Ollier descreveu a sensação de vazio provocada pela ausência das fotografias. O jornal parecia ter perdido uma parte da sua capacidade de comunicar: faltava a linguagem visual que ajuda os leitores a compreender os acontecimentos e a formar uma representação do mundo.
Mentré, M. (2013.11.18). Libération sans photo. The media tren.
Em 2015, o diário alemão Bild realizou uma iniciativa semelhante. A 8 de setembro, publicou uma edição impressa e uma versão digital sem fotografias editoriais, procurando demonstrar a importância das imagens no jornalismo. A decisão surgiu depois da polémica em torno da publicação da fotografia de Alan Kurdi, uma criança síria de três anos encontrada morta numa praia turca, cuja imagem teve grande impacto na opinião pública internacional.
Gindersperger, S. (2015.09.08). Bild sans photo pour montrer le pouvoir des images. Libération.
Estes dois exemplos mostram que as fotografias não servem apenas para ilustrar os textos: podem transmitir informação, documentar acontecimentos, despertar emoções e influenciar a forma como compreendemos o mundo.
Uma fotografia pode acompanhar um texto para o tornar mais apelativo, explicar um conceito, documentar um acontecimento ou acrescentar informação que não está presente nas palavras.
Podemos distinguir, de forma geral, duas funções:
Esta distinção não é absoluta. Uma fotografia documental também pode ser selecionada para ilustrar um texto, enquanto uma fotografia produzida para fins ilustrativos pode transmitir informação relevante. O que importa é compreender a função que a imagem desempenha em cada contexto.
Uma fotografia de arquivo utilizada para ilustrar uma notícia pode ser autêntica e, ainda assim, induzir em erro se o leitor pensar que representa o acontecimento descrito. Por exemplo, uma fotografia antiga de uma manifestação não deve ser apresentada de forma a sugerir que foi captada numa manifestação recente.
Uma imagem pode ser verdadeira enquanto fotografia e enganadora enquanto mensagem.
Imagina uma fotografia de uma pessoa a correr numa rua. A imagem pode acompanhar uma notícia sobre uma competição desportiva, uma fuga a um perigo ou uma campanha de promoção da atividade física. A fotografia é a mesma, mas o título, a legenda e o texto que a acompanham orientam a sua interpretação.
O significado de uma imagem depende, portanto, de vários elementos: aquilo que mostra, o momento em que foi captada, o enquadramento escolhido, a legenda, a fonte e o contexto em que é divulgada.
Esta questão é particularmente importante nos meios digitais, onde uma fotografia pode ser copiada, recortada e partilhada milhares de vezes. Ao circular entre diferentes plataformas, pode perder a legenda original ou ser associada a acontecimentos com os quais não tem qualquer relação.
Por isso, quando encontras uma imagem numa notícia ou numa publicação nas redes sociais, procura saber:
A fotografia tem uma forte associação à ideia de prova: muitas vezes, acreditamos que uma imagem demonstra que algo aconteceu porque conseguimos ver aquilo que ela representa. No entanto, uma fotografia não deve ser considerada uma prova incontestável apenas por parecer realista.
A manipulação de imagens existe desde os primeiros tempos da fotografia. Ao longo da história, fotografias foram recortadas, retocadas, montadas ou alteradas para modificar a representação de pessoas e acontecimentos. Com a edição digital, estas operações tornaram-se mais acessíveis e, em muitos casos, mais difíceis de detetar.
Atualmente, a inteligência artificial permite também gerar imagens fotorealistas de acontecimentos que nunca ocorreram, modificar fotografias existentes e criar conteúdos que imitam documentos visuais autênticos.
É importante, contudo, distinguir diferentes situações:
Nem toda a edição constitui manipulação enganadora, nem todas as imagens geradas por IA têm uma finalidade fraudulenta. O essencial é conhecer a origem do conteúdo, compreender o seu propósito e avaliar se a forma como é apresentado pode induzir o público em erro.
Quando uma fotografia ou um vídeo suscitam dúvidas, há várias formas de investigar a sua autenticidade e o contexto em que foram produzidos.
1. Identifica a fonte. Procura a publicação original e verifica se o autor, o órgão de comunicação social ou a entidade responsável são identificáveis.
2. Confirma a data e o local. Uma imagem verdadeira pode ter sido captada há vários anos ou noutro país. Verifica se corresponde ao acontecimento a que está associada.
3. Pesquisa versões anteriores. A pesquisa inversa de imagens pode ajudar a localizar publicações mais antigas e outros contextos em que a mesma fotografia foi utilizada.
4. Compara fontes. Procura informação independente que confirme o acontecimento. Não te limites a publicações que reproduzem a mesma imagem ou repetem a mesma alegação.
5. Examina o conteúdo com prudência. Observa pormenores visuais, recortes, legendas e possíveis incoerências. Contudo, não concluas que uma imagem é falsa apenas porque apresenta imperfeições, nem que é verdadeira porque parece convincente.
6. Reconhece os limites das ferramentas. Os sistemas de deteção de imagens geradas por IA podem produzir erros. A ausência de sinais de manipulação não comprova a autenticidade de uma imagem.
Verificar uma imagem significa reunir evidências e avaliar a sua qualidade. Em alguns casos, será possível chegar a uma conclusão fundamentada; noutros, a informação disponível não permitirá confirmar a origem ou a autenticidade do conteúdo.
A capacidade de interpretar imagens e de as utilizar para comunicar ideias designa-se, de forma geral, literacia visual. Inclui compreender a linguagem das imagens, analisar o seu contexto, reconhecer os seus efeitos e produzir conteúdos visuais de forma consciente.
Esta competência é particularmente importante numa sociedade em que fotografias, vídeos, infografias e outros conteúdos visuais circulam constantemente através de jornais, televisões, plataformas digitais e redes sociais.
A literacia visual não consiste em desconfiar de todas as imagens. Consiste em saber apreciá-las, compreender o seu valor informativo e reconhecer os seus limites. Implica também perceber que as imagens podem documentar acontecimentos, preservar memórias, revelar realidades desconhecidas e dar visibilidade a pessoas e situações que, de outra forma, permaneceriam ignoradas.
Quando produzes as tuas próprias imagens, deves igualmente pensar no significado que podem transmitir. A escolha do enquadramento, da legenda e do contexto influencia a interpretação do público. É importante respeitar os direitos de autor, a privacidade e a dignidade das pessoas representadas, evitando alterações ou apresentações que possam induzir em erro.
As imagens ajudam-nos a conhecer o mundo, mas precisam de ser interpretadas. Aprender a questioná-las — tanto quando as vemos como quando as produzimos — é uma competência fundamental para participar de forma crítica, informada e responsável na sociedade.
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