Rede de Bibiotecas Escolares
Portal da Educação
Newsletter 04

Newsletter // Newsletter 04

Miguel Real - Escritor e professor na biblioteca da escola

17 de abr de 2009

A biblioteca na escola é para alguns, mais do que um espaço de trabalho, um lugar natural para "estar". Luís Martins, Miguel Real (1) na actividade de escritor, associa o seu gosto pelo ensino e pela relação com os jovens, com a paixão pela leitura, pelos livros e pela escrita. Mais razões para sentir a BE como o local primeiro do seu "prazer" na escola? Oiçamos, então, este professor escritor, amante da arte de ensinar e dos livros.

Miguel Real

Escritor e Professor na Biblioteca da Escola

Ana Bela Martins
Margarida Pinho
Gabinete da RBE

 

A biblioteca na escola é para alguns, mais do que um espaço de trabalho, um lugar natural para "estar". Luís Martins, Miguel Real (1) na actividade de escritor, associa o seu gosto pelo ensino e pela relação com os jovens, com a paixão pela leitura, pelos livros e pela escrita. Mais razões para sentir a BE como o local primeiro do seu "prazer" na escola? Oiçamos, então, este professor escritor, amante da arte de ensinar e dos livros. 

 

RBE - Existe conflito entre o Miguel Real escritor e ensaísta e o Luís Martins professor?

MR - Eu tentei resolver isso no princípio de uma maneira muito errada, diga-se de passagem, separando o Luís Martins do Miguel Real. Aparecia nos colóquios e nos livros com o nome de Miguel Real e na escola era o Luís Martins. Isto porque quando estava no liceu de Oeiras fiz um livrinho de apoio ao Platão, a Apologia de Sócrates, o livro era obrigatório na época e havia várias outras edições, mas houve uma simpatia com aquele livro, não sei porquê e telefonaram de muitas escolas do país para eu ir lá. Eu, a Filomena e o António, éramos os três autores, começámos a ir e começou a ser incomportável para não faltar. Saíamos daqui às cinco da tarde, depois dávamos uma sessão de manhã em Vila Real e entrávamos às três da tarde nesse dia, era uma coisa perfeitamente louca. Então separei o Miguel Real do Luís Martins. Hoje estou um bocadinho arrependido porque entretanto o Miguel Real abafou o Luís Martins e os alunos já sabem todos, é quase impossível não saberem do Miguel Real.

RBE - Os alunos tratam-no por Miguel Real? 

MR - Não, os alunos tratam-me por Luís Martins, eu nunca falo do Miguel Real e recuso qualquer coisa na escola que tenha a ver com o Miguel real, nem a apresentação dos livros é feita cá, mesmo na Feira do Livro nunca aceito que os meus livros venham, mas depois o Francisco [coordenador da BE] vai à socapa buscá-los, eu já sei...

RBE - Procura separar?

MR - Procuro separar, exactamente, porque aqui é o lado profissional onde exercito pedagogicamente o meu ofício o melhor que sei; e depois o outro lado é o lado da libertação, mesmo da libertação quase catártica da escola também. Embora a escola seja um emprego extremamente agradável, os alunos com 18 anos são muito, muito agradáveis, eu gosto imenso deles, escolhi muito bem a profissão, todos os anos tenho duas, três turmas, os alunos aos 18 anos não têm aqueles problemas e aquelas brincadeirinhas do 9º ano, estão quase a entrar para a Universidade e têm a pressão da nota também. As más educações também são raríssimas, muito raras e quando não há curiosidade, há imposição da nota, portanto, começa-se a fazer logo uma selecção, não somos nós que fazemos, são eles próprios que se auto-seleccionam. Quando ele [o aluno] tem 10 no 1º período, já sabe que o 10 não lhe serve para nada, no 2º período já começa a desistir, no 3º já não vem e tenta recuperar no ano seguinte. Portanto, não há conflito entre o Miguel Real e o Luís Martins, há uma certa dialéctica de conflito que não é um conflito absoluto, mas que eu tenho de conviver com isso; também não me atrapalha muito.

RBE - E agora o outro lado da escola que é a biblioteca? Para além das funções lectivas, é membro da equipa da biblioteca. Que razões o levaram a eleger a biblioteca como espaço privilegiado de trabalho na escola?

MR - Esse é o lado mais agradável da escola. Sempre vivi no meio dos livros, portanto, sempre aonde vou, qualquer novo país onde vá, fui agora a Zagreb, a 1ª coisa que quis foi logo ir ver onde é a biblioteca de Zagreb e depois vi outra pequenina, uma biblioteca lindíssima, europeia, eles estão como nós estávamos em 80, a entrar na Europa, mas não é propriamente a biblioteca em si que me atrai, é a casa dos livros, são os livros, ver se está lá algum livro que eu não conheça, está um autor que eu não conheça, está um poema tal de Sá de Miranda que eu nunca encontrei, será que há aqui? É essa, digamos, que é a extensão natural da minha casa. Na casa tenho livros, quando não estou em casa estou na Biblioteca Nacional, quando não estou na Biblioteca Nacional estou na escola, na biblioteca. Não tem segredo nenhum, diga-se de passagem, tomara que todos os professores fossem assim, isto é, encontrassem na escola um local que lhes fosse extremamente agradável. Há professores, por exemplo, que estão vocacionados para a direcção de turma. Há professores, neste caso, mais professoras, que estão altamente vocacionadas para a direcção de turma. E eu vejo lá em cima, na sala de directores de turma, vê-se que as relações são amistáveis, até de confiança e de aconselhamento dos pais que me ultrapassam e que ultrapassam totalmente a função de professor. Cada professor tem que abandonar aquela sala de professores antiga, rígida, onde cada um tem a sua carteira, tem de encontrar na escola um sítio. Aqui há imensos sítios... há o Clube Europeu, há a Blue; a Blue é uma biblioteca lúdica, utilitária que duas colegas nossas fizeram lá em baixo sobretudo para o 7º, 8º e 9º; e há imensos, há imensos clubes que não acabam, portanto, as pessoas encontram o seu clube e ficam...O Clube Europeu trouxe o Fernando Nobre, da AMI, está aqui a falar [neste momento]; aqueles colegas do Clube Europeu trabalham imenso e encontram a sua vocação nestas relações com a Europa; eu encontrei a biblioteca, também não há nada de extraordinário.

RBE - Como perspectiva a biblioteca na escola? A que finalidade deve responder a biblioteca escolar?

MR - Agitada, agitada! A finalidade é sempre dar o livro, o dvd, o cd ao aluno, permitir que esteja disponível o máximo de informação possível gravada em audiovisual ou em papel ou, no nosso caso, também na internet. Muitos alunos aqui desta zona não têm internet em casa, não é como no Pedro Nunes, todos têm internet e, portanto, não são precisos 12 computadores para os alunos irem à internet. Aqui há muitos negros que não têm de facto internet em casa, não têm computador e se um ou outro tem um computador antigo, daqueles 486 que os pais compram em 2ª mão, não dá para pagar os 40 euros por mês para terem internet. A biblioteca deve disponibilizar toda a informação mas, hoje, devido aos tempos um bocadinho infantilóides que nós vivemos, essa distribuição, essa disponibilização não é suficiente para atrair alunos, tem que haver agitação, tem que haver nitidamente agitação. O professor tornou-se, sem querer, um agitador de consciências, inevitavelmente.

RBE - Essa expressão é interessante!

MR - A seguir ao 25 de Abril, quando eu entrei para a escola, era exactamente assim, era assim que nos dizia o Mário Dionísio, o Gilot, o Francisco Gilot do Pedro Nunes... o Rómulo de Carvalho, o Gedeão, dizia exactamente assim: "eu não tenho jeito para falar - ele era de Física - então dou poemas aos alunos no meio de experiências de laboratório" e punha lá aqueles poemas do sal, feitos por ele e por outros e era isso que era agitar. Os alunos passam aqui 5, 6 horas por dia no mínimo; os do 12º ano, tirando duas tardes, passam 5, 6 horas por dia, quando não 8, contando com o almoço. Estudam e estudam a sério, um ou outro não estudará mas a maioria estuda a sério, portanto voltar novamente para a biblioteca, ler livros, ver a mesma coisa, é extremamente cansativo. Tem que se dar o ensino através de uma marca especial, essa marca especial a biblioteca dá-lhes. São pequenas conferências, pequenas palestras, é a organização de tardes de poesia, da tarde do romance, escritores que vêm cá também, muita gente: o Fernando Nobre está cá, estão ali duas turmas, nunca mais se vão esquecer do que é a AMI. Sempre que no telejornal aparece a AMI o cérebro deles passará a organizar a informação duma maneira diferente. É preciso um funcionário na biblioteca para estruturar a informação ao nível da funcionalidade e para ficar tudo disponível, mas se o coordenador da biblioteca for só um funcionário, com mentalidade de funcionário, de burocrata, acho que a biblioteca não cumpre a função. Aliás, estas bibliotecas, as novas bibliotecas municipais todas, vivem todas atravessadas por ondas de agitação. Não sei se será bom, se será mau, sei que cumpre a função, a agitação cumpre a função. Para mim, a biblioteca ideal é o silêncio absoluto, é um mosteiro, é a Biblioteca Nacional, nem a Faculdade de Letras. Mas eu percebo que os outros não são como eu e sobretudo os mais novinhos não são como eu, portanto acho que a biblioteca deve ter grande movimentação e nesse sentido numa biblioteca escolar o professor deve ser intermediário entre o exterior e o interior. RBE - É curioso que nesta Conferência sobre a leitura promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian, o António Nóvoa, que fez a abertura de um dos painéis, dizia que a escola devia valorizar o silêncio, substituir os métodos activos por métodos reflexivos, ser uma escola contracorrente. MR - Sim, eu estou de acordo, devia voltar o silêncio. A escola devia ser um lugar de diferença, a escola devia ser contracorrente mas eu receio que os alunos se afastassem todos, principalmente até ao 10º, afastavam-se todos. Eles já têm tanta informação, eles são bombardeados com tanta informação desde a tv à internet, a todo o conjunto de vídeos e cd's que podem comprar, que dizer-lhes apenas "vai ler o Luís Sttau Monteiro, senta-te na biblioteca e lê 100 páginas do Luís Sttau Monteiro!" é impensável, neste momento é impensável. Acho que o António Nóvoa tem muita razão na Faculdade, agora a este nível e segundo esta agitação social que vivemos, segundo os meios de comunicação todos, acho que não. Não há nenhum meio de comunicação que não abra as notícias com qualquer tipo de escândalo, seja qual for, para atrair a pessoa que está sentada e fica logo ali presa...

RBE - Fica refém?

MR - É refém disso, mas não pode ser, não devia ser. A biblioteca ideal para mim era a biblioteca do Pedro Nunes ou a biblioteca do Camões. Então a do Pedro Nunes adorei, devem estar a mudar...A do Maria Amália com aqueles armários gigantes todos fechados, os livros lá em cima, só os alunos do 7º ano (o antigo 7º ano) é que podiam lê-los e era o contínuo que ia lá acima buscá-los, nós só víamos cá de baixo, até ao 9º ano actual nem pensar, a partir da 3ª prateleira não se podiam ler e estava tudo feito assim. Hoje isso não dá, [os alunos] abrem a televisão é uma proliferação e uma promiscuidade que existe em toda a televisão; aquilo que chamávamos promiscuidade, hoje é um liberalismo a todos os níveis, em todos os costumes. Para quê proibir o Crime do Padre Amaro? Porque foi um padre que matou a Amélia? Só por isso, hoje.

RBE - Era a censura? Uma censura que impedia o acesso livre à cultura a todos os níveis?

MR - Era a censura nessa altura, claro, mas mais do que a censura era uma mentalidade, um dispositivo mental que nós tínhamos em que a biblioteca era igual a silêncio. Eu nasci assim, por isso, para mim, biblioteca igual a silêncio mas percebo que para o aluno não, para o aluno não pode ser. Eles já não conseguem ver um filme em silêncio, o silêncio absoluto dum antigo cinema Império que ninguém quebrava, pelo menos não me lembro, é impensável. Para eles é tão natural aquele movimento, as pipocas, a agitação da água, um a entrar, outro a sair, os SMS, para eles é naturalíssimo, naturalíssimo, não tem qualquer problema. "Qual é o problema professor? Qual é o problema?" É como o chapéu dentro da sala.

RBE - A capacidade de concentração acaba por ser muito inferior e a cultura mais superficial?

MR - Penso que sim; é uma cultura geral entra/sai, entra/sai, entra/sai, é tudo input/output.

RBE - Que papel tem a literatura no seu trabalho na biblioteca?

MR - Ah, a literatura é o sagrado, eu aqui nem falo de literatura, não, falo no sentido em que trago escritores cá, só nesse sentido, mas enquanto estou aqui na biblioteca, por exemplo, se vier algum aluno ajudo-o mas é no campo da Psicologia e da Filosofia que é o que eu dou. Agora a literatura é aquilo que é tão íntimo para mim que eu tento sempre pô-la fora da escola. Bom, mas não consigo e, portanto, na semana da escola e em todas as semanas vou sempre trazendo escritores que ao fim e ao cabo são pessoas amigas que não se importam de vir cá e assim os alunos e os outros professores, mas mais os alunos, passam a conviver com os escritores. A Câmara de Sintra tem um plano feito com a Associação Portuguesa de Escritores que é "Os escritores vão à escola".

RBE - E o Plano Nacional de Leitura também.

MR - Também, mas é até ao nono ano. Aqueles escritores que nós não damos mas que gostaríamos que os alunos lessem como a Teolinda Gersão, por exemplo, a Lídia Jorge, a Lídia Jorge para os mais velhos, o [Gonçalo M.] Tavares, o [Luís] Peixoto, a Inês Pedrosa e outros, esses nós suplantamos essa falta, convidando-os a virem cá. No Plano Nacional de Leitura quem está lá são os escritores infantis na sua grande maioria, é quase tudo até ao 9º ano. Mas, por exemplo, a Filomena Beja tem um livro que é "A sopa" sobre os sem abrigo, absolutamente fabuloso. Então nós convidamo-la e ela vem cá. Habitualmente vêm, almoçam connosco, bebem um café. Vêm e gostam e ficam muito admirados. Por exemplo, o Rui Zink veio cá - eu disse-lhe, "olha, há alunos que às vezes são provocadores, tem cuidado" - e ele vinha a pensar que ia encontrar um bando de africanos, incultos, ignorantes, que não pescam nada da literatura, só querem saber de televisão, absolutamente alienados e encontrou duas turmas...Como ele é muito conhecido, as outras turmas também quiseram vir, vieram imensos rapazes e raparigas, sentaram-se no chão, ele ficou admirado porque na escola, no tempo dele - os pais dele eram professores - não se podiam sentar no chão. E fizeram-lhe perguntas tão interessantes, tão interessantes, tanto rapazes mulatos, quanto brancos, quanto raparigas, que ele saiu daqui maravilhado e já estive com ele, está absolutamente maravilhado, afinal não é a geração rasca! E não é geração rasca!

RBE - Nós também temos alguns preconceitos!

MR - Temos alguns preconceitos, temos. Pensamos que os negros são todos iguais àqueles gangs de Rio de Mouro que mataram um. Esses são os que a escola não incluiu, que a escola não foi capaz de incluir. Esses que se matam mutuamente e que andam na droga à noite em Rio de Mouro são aqueles que a escola pôs na rua, não conseguiu incluir.

RBE - Pelo que já disse, depreende-se que não usa os seus livros na promoção da leitura.

MR - Não, mas estão cá todos, eu ofereço sempre um à biblioteca. Mas não são usados na promoção da leitura, por mim não são. Eu vejo é os alunos a lê-los, vêm cá lê-los, só que depois começam na 1ª página e logo desistem na 2ª, acham muito difícil.

RBE - Talvez seja uma questão de vocabulário.

MR - É de vocabulário. No princípio eles têm sempre curiosidade de saber - "olha, aquele professor escreve" - depois vão ver um livro, pegam na Voz da Terra ou no Ultimo Negreiro, são difíceis para eles, eu percebo.

RBE - Na medida em que escreve muito o género romance histórico, não acha que poderia haver uma articulação, por exemplo, com a história?

MR -Talvez. Mas na escola tento não ter nenhuma actividade que tenha directamente a ver com a publicidade aos livros.

RBE - Mas considera interessante a articulação da literatura com o currículo escolar, nomeadamente através do romance histórico?

MR - Sim, sim e nós fazemos isso. Hoje, por exemplo, são turmas de História e Português que vão assistir a uma espécie de aula ao vivo dada por José Eduardo Franco sobre o Padre António Vieira. Não estou muito de acordo com a história ao vivo, aquela antiga metodologia de história em que para se perceber a Idade Média vamos fazer uma feira ali: um aluno veste-se de rei, outro de .....Eu penso que essa ideia foi um bocadinho ingénua, ingénua no sentido em que a história necessita primeiro de memorização, compreensão/memorização e depois de uma reflexão. Isso deve ser feito na sala de aula, pode ser feito com filmes, na história do século XX temos imensos filmes para isso, sobre a 2ª guerra mundial há filmes que nunca mais acabam e há filmes mesmo didácticos, sobre o Hitler, sobre a 2ª guerra mundial em geral. A história devia ser uma das disciplinas principais, mais até do que a literatura, para falar verdade; a história devia ser uma espécie de linha dorsal de um plano de culturalização do aluno, de consciencialização do seu lugar na história.

RBE - Mas a literatura pode servir a história. Lendo o Eça pode-se perceber o liberalismo...

MR - Sim, sem dúvida, ajuda perfeitamente. Mas, primeiro, a história devia ser uma disciplina resgatada, está abandonada totalmente a partir do 10º ano.

RBE - A filosofia também é uma disciplina estruturante.

MR - Sim, a outro nível, mas a filosofia continua obrigatória, os programas não são muito bons mas a filosofia continua; agora a história está abandonada, é uma disciplina de 3º ciclo. Aqui na escola está uma turma no secundário, são aqueles alunos que têm o gosto da história ou o gosto das línguas, porque tendo línguas, têm história.

RBE - Depois não conseguem perceber o telejornal!

MR - É evidente! A história, até talvez com outro nome, não sei, devia ser informativa e transversal a todas as disciplinas no secundário. Isto é o lado da história. O romance histórico pode ajudar a conhecer mas a intenção do leitor do romance histórico é uma, a do autor é outra. Isto é muito importante porque o leitor procura algum conhecimento no romance histórico, mas o autor não procura transmitir conhecimento no romance histórico, procura transmitir aquilo que transmite em qualquer tipo de romance, que é uma emoção estética, um prazer, uma agradabilidade ou, se for um tema muito mau, algumas páginas de perfeita repulsa, o que também é emotivo. Portanto, nesse sentido, o autor do romance histórico não está a escrever história do ponto de vista didáctico - isso são os manuais - tem um juízo de valor, uma perspectiva, selecciona um conjunto de aspectos da realidade, por vezes transforma-os - o Saramago transforma tudo, o Lobo Antunes pega no Camões e fá-lo vir com os retornados em 1975, por exemplo, nas Naus. O Fernando Campos é mais real, mais rigoroso, mais documental, é o grande mesmo, é o patriarca do romance histórico hoje, os romances dele têm grande valor e sem dúvida que o leitor através dessa leitura vai adquirindo conhecimentos mas o autor não produz o romance histórico no sentido de transmitir conhecimento, isto é importante dizer. Agora o aluno, o 3º que é o aluno: será que o romance histórico ajuda o aluno? Se for aluno na Faculdade ajudará imenso, porque tem um nível de consciência que lhe permite separar o romance histórico ou a ficção do próprio romance; se for um aluno aqui do liceu, o romance histórico não sei se ajuda. Penso que o filme histórico, por exemplo, ajudará muito mais e é muito mais atractivo ou vinculativo às categorias mentais do aluno, do aluno do 10º, 11º, 12º, sobretudo 10º e 11º. Há uma forte infantilização do ensino, eu apercebi-me disso quando voltei, estive 5 anos fora a fazer o doutoramento e outras coisas, depois quando voltei tinha turmas do 10º ano e pensava que estava perante um 8º ou 9º ano. Olhava e perguntava-me: será que os meus filhos são assim? Na 1ª semana de aulas fomos jantar, a Inês, que é a filha mais nova, estava no 10º nessa altura - pois, estou cá há 3 anos - e eu perguntei: ó Inês, explica-me as tuas aulas, diz-me o que é que vocês fazem nas aulas; será que tu és como os meus alunos, que são duma grande infantilidade? Ela beneficia, mas temos aqui filhos de professores, filhos de médicos, filhos de advogados, a maior parte são filhos de imigrantes, imigrantes negros, mas temos imensos filhos de empregados da câmara...Se nós elevamos, não dizemos "militar", dizemos "bélico" e o aluno, pum! Não só não sabe, não percebeu o que é "bélico", começa a pensar que é "belo", não percebe o discurso, estamos a falar em guerras e ele está a dizer que é belo, isto foi o que me sucedeu! Eu cheguei a ser ouvido porque num ponto escrevi "actividade bélica" e veio um pai dum aluno que até tinha trezes, catorzes, baixa imenso nesse ponto, aquele texto era estruturante para duas ou três perguntas, ele não percebeu "bélico", não perguntou, era muito tímido, era um negro muito tímido, há um grupo inteiro das actividades éticas que ele perde todo, baixa imenso, vem cá o pai que disse à directora de turma, que me veio dizer a mim, que ele não tinha percebido o que significava "actividade bélica", só isto, uma coisa simples, uma coisa tão simples! Temos uma infantilização não só de comportamentos, mental! As palavras abstractas, o Kant, é quase impossível dar o Kant neste momento no 10º ano! Eu fiquei perfeitamente varado, houve uma nova geração que chegou que é a geração da televisão, toda ela influenciada pelos vídeos, pela televisão, pela internet, etc, que usam a linguagem imediata, com algum rigor, é certo, mas se passamos para o pensamento abstracto têm muita dificuldade. Por isso é que eu digo: será que o romance histórico ajuda o aluno do 10º ano? Não sei; o que ajuda é o vídeo, o dvd agora, isso é que ajuda imenso, o filme histórico. Por exemplo, o Gladiador ajuda mais a dar uma aula sobre história romana, com os costumes, o Coliseu, as brigas, as brigas dos transportes, todos os costumes entre homem e mulher, todas as roupas, o modo como não havia mesas, não havia cadeiras, como é que se entrava dentro de uma casa, como é que as mulheres se penteavam, tudo isso ajuda mais a definir tanto a passagem do Império para a República quanto o romance Eu Mário, não me lembro agora do autor, que é um volume enorme, o aluno fica logo esmagado.

RBE - É o que acontece com o Umberto Eco e O Nome da Rosa.

MR - No Nome da Rosa, logo no princípio o aluno tem que saber quem são os albigenses. O romance começa logo com aquela frase da navalha do Ockham, portanto o aluno tem de saber quem é o Guilherme de Ockham. Eu acho que também só soube quando cheguei à Universidade, no liceu não me lembro desse nome. Nós adoramos aqueles romances, mas somos nós; não sei se o romance histórico é de grande utilidade para o liceu, a não ser que façamos aquele romance histórico do Campos Júnior, do Rocha Martins, em que é tudo muito simples, muito romântico, muito literal. Como é que é possível eles lerem as Lendas e Narrativas do Alexandre Herculano hoje? Como é que é possível, com aquele vocabulário? É muito difícil! Esse é um facto e eu sinceramente preocupo-me com isso porque vejo a infantilização do ensino ser cada vez maior. Acho que já batemos no fundo, que já não conseguimos ir mais, sem dúvida que os imigrantes contribuíram muito para isso, o nível lexical deles é muito fraco e não podemos obrigá-los.

RBE - Mas os imigrantes não são os únicos responsáveis; a responsabilidade é também da sociedade mediática.

MR - Não, não são, é da sociedade mediática, exactamente! Eu estou convencido que é da televisão, eles têm o vocabulário da televisão, da internet, dos SMS. Não é desgraça e ninguém vai morrer, nem a cultura vai acabar, não estou aqui a fazer um poema...

RBE - Como é que nós vamos responder a isso?

MR - Nós vamos responder espontaneamente da seguinte maneira - foi como os americanos responderam: há 5 a 10% que vão ser muito bons, muito inteligentes, vão ser os melhores cientistas do mundo, os melhores "filósofos" do mundo, os melhores "historiadores", os melhores "etc." e os 95 ou 90% restantes é a banalidade.

RBE - Passamos dos analfabetos aos alfabetizados funcionais.

MR - Exactamente, é isso mesmo, os alfabetizados funcionais. É um pouco triste, mas toda a sociedade europeia caminha para isso, nos liceus franceses é a mesma coisa.

RBE - Seria bom que fossemos capazes de alterar isso, a Escola tem algumas responsabilidades.

MR - Claro, eu dentro das minhas funções altero. Trago os escritores cá, mais ao nível emotivo do que ao nível racional; fazemos conferências contínuas; lemos o jornal praticamente aula sim, aula não, na aula de área de projecto; as minhas turmas participam no Parlamento Europeu dos Jovens, participaram na Gulbenkian nas comemorações do fim da pena de morte, foram lá 8 alunos falar, prepararam tudo, agora no Parlamento eles é que vão falar também. Isto vai alterando, mas eu tenho duas turmas, tenho três disciplinas e duas turmas, e além disso sinto que sou totalmente impotente face a isto que me esmaga, que é uma avalanche.

 

RBE - Como equaciona a relação entre a literatura e a promoção da leitura? Todo o tipo de textos pode servir para a promoção da leitura ou considera que a literatura é o grande veículo para o desenvolvimento do gosto pela leitura?

MR - Eu estou absolutamente de acordo com a professora Carmo Vieira, com os artigos dela no JL que eu leio um pouco religiosamente, embora seja muito, muito amigo da Conceição Coelho que fez este programa [coordenadora dos programas de Literatura Portuguesa e de Português], apesar de não ter sido da Conceição Coelho a ideia de divisão entre a língua portuguesa e a literatura. Ela é aqui de Sintra e é professora no liceu de Sintra, é colega da Filomena e eu conheço-a há 20 anos. O actual programa [de Português], aquele que permite que permite tudo, até o Totoloto, pode servir a promoção da leitura, da literatura não. A minha opção é a última: a escola serve para elevar o aluno e não para rebaixar, portanto, se ele tem uma linguagem de taberna em casa, que é um bocado o que aqui se passa, ele não pode encontrar a mesma linguagem na escola, tem de encontrar uma linguagem que seja socialmente universal. Por isso é que o aluno vai à escola e não vai para o campo de futebol e tem que aprender a fazer estas distinções. Quando for trabalhar não usa a linguagem de taberna e quando tiver que fazer cartas comerciais, quando tiver que fazer relatórios para o patrão ou seja para quem que for, também não utiliza essa linguagem. A literatura como cristalização mais elevada da língua ao nível emotivo, digamos assim, tem todas as potencialidades para atrair, tem todas as heroínas, todas as heroínas existem na literatura para atrair os rapazes e as raparigas, sejam heroínas actuais sejam antigas heroínas. Mas temos absolutamente que saber explicar e a escola não deve nunca cair no discurso jornalístico, quer dizer, no discurso que não seja o discurso nitidamente literário porque é para isso que existe. Se a escola explica a ciência deve explicar a literatura, não deve de modo algum separar a ciência, não deve rebaixar a ciência a um nível tal que não se consiga separar um engenheiro de um electricista. O electricista não precisa de vir à escola, o engenheiro precisa de vir à escola, então por algum motivo será: o electricista aprende técnica, aprende manualmente, aprende com um electricista maior ou tira pequenos cursos.

RBE - O engenheiro necessita de dominar as questões conceptuais.

MR - Pois, exactamente, o engenheiro precisa de saber as grandes estruturas de electricidade, também não sei bem o que ele precisa de saber, mas se andou 5 anos no Técnico a estudar, precisa de saber imenso, as questões conceptuais, exactamente. Eu acho que a literatura é outro dos aspectos que a escola está nitidamente a perder, a perder individualidade; perde a história, perde a literatura, qualquer dia perde a filosofia, praticamente está perdida porque deixou de haver exames, portanto o aluno já sabe - esta é para estudar um bocadinho, para fazer aqui um discurso que o professor gosta.... - já não há exame, isso foi uma machadada terrível na filosofia. A escola perde estas disciplinas, perde o humanismo.

RBE - Mas depois entram no currículo áreas não disciplinares como Formação Cívica, que não têm grande conteúdo.

MR - Não, não têm, são disciplinas transversais que são tudo um bocadinho e não são nada. Como a Área de Projecto que eu dou e não tenho programa, invento o programa continuamente. O programa é: liberdade para o aluno e responsabilidade para o aluno. Okay, está bem! Eu faço imensa coisa, mas outros podem nada fazer, ninguém é obrigado a fazer, os alunos só têm que fazer um trabalho, então podemos estar ali, o aluno escolhe o trabalho, faz o trabalho, vê os pormenores todos, isto um ano inteiro é perder tempo, é nitidamente perder tempo.

RBE - Agora queríamos fazer-lhe uma pergunta mais pessoal: no seu caso, que factores/contextos foram decisivos para a sua formação enquanto leitor?

MR - Olhe, foi o silêncio nas bibliotecas, foi justamente isso, bem, mas quando eu ia para lá já estava cativado! É antes disso, é em casa, indubitavelmente é em casa, o meu pai lia todos os dias, bastava isso, todos os dias lia o Século que era um jornal daquela altura que depois desapareceu. E também me lembro da televisão chegar, a televisão chegou em 50 e tal, eu era pequenino, chegou em 57, eu nasci em 53, portanto tinha 4 anos, não tive logo televisão, ninguém teve logo televisão - era uma geração diferente - e o que é que fazíamos à noite? O meu pai contava histórias, a minha mãe contava histórias, o meu irmão contava histórias, um lia, o outro lia, outro lia, outro lia...Cria-se um hábito de tal maneira que, quando a pessoa depois está sozinha novamente, em vez de ir buscar o vídeo vai buscar o quê? Vai buscar o livro! Agora com os nossos alunos já é diferente, quando estão sozinhos, pensam: "então vamos ver um vídeo, vamos alugar um vídeo no clube de vídeo"!. Pegam no vídeo e vão para casa, em vez de lerem vêem o vídeo, a experiência deles tem a ver com o vídeo. Não é uma má experiência!

RBE - Como escritor e professor, que percepção tem sobre a promoção da leitura nas escolas e nas BE's? Considera que a escola, na sociedade actual e com os desafios que esta implica, prepara os jovens para serem leitores competentes e críticos?

MR - É fundamental, exactamente. A escola tenta responder a esses desafios todos mas são desafios a mais porque a escola está a contracorrente e todos esses desafios estão relativamente a contra-corrente da sociedade, não estão em absoluta contra-corrente mas estão relativamente a contra-corrente. O que significa que a escola é uma formiga que trabalha imenso mas é minúscula como toda a formiga e por ela só, embora trabalhem todos em conjunto para conseguir fazer uma promoção da leitura e construir um leitor crítico, não se consegue na totalidade, não quer dizer que não se consiga em absoluto. Nós todos os anos temos grandes leitores, grandes leitores entre os alunos, uns lêem livros melhores, outros livros piores, agora não interessa, mas temos grandes consumidores de livros, embora sejam uma minoria.

RBE - Nós sabemos que não podemos estimular em todos o gosto pela leitura literária mas, pelo menos, a escola tem que criar leitores competentes e críticos.

MR - Esta escola cria, a Escola Secundária de Mem Martins cria de certeza absoluta. A escola em abstracto tenta criar, esta cria pela estrutura das aulas de alguns professores, pelas actividades paralelas às aulas, pela criação da Blue, a tal biblioteca utilitária para os mais novos, onde os alunos brincam com os livros.

RBE - Considera que a literatura é crucial?

MR - Ah, sim, absolutamente crucial, agora se a escola consegue levar esse caminho a bom porto, a escola agora no sentido universal, europeu até, isso sinceramente acho que não consegue, é vencida pela televisão. A linguagem dominante é a linguagem dos audiovisuais, absolutamente e ninguém vai morrer por isso e não se vão descobrir menos remédios para curar doenças e não se vão descobrir menos múmias no Egipto, quer dizer, não acho que seja o fim do mundo, é um novo tipo de cidadão que está a nascer. Só que esse novo tipo de cidadão vai ser um cidadão mais conformista, com menos capacidades críticas na sua grande maioria. E haverá uma minoria com maiores capacidades críticas do que nós, do que eu, pelo menos, com maiores capacidades do que a nossa geração. Esse é o modelo americano que é: poucos bons, muitos normais, alguns excluídos, mas poucos excluídos também. Poucos os excluídos, poucos os muito bons e o normal a massa, a grande massa é o normal. É a sociedade americana, caminhamos para lá, é melhor do que sociedades ditatoriais penso eu para me consolar, apesar de tudo.

RBE - Isso relaciona-se com a leitura, não é?

MR - Acaba por estar tudo relacionado, anda tudo à volta dos livros.

RBE - Os jovens lêem sobretudo em suportes electrónicos, estão imersos na tecnologia. Até que ponto os novos instrumentos, sobretudo as ferramentas mais interactivas que a web2.0 disponibiliza, podem contribuir para o desenvolvimento de hábitos de leitura?

MR - Podem, podem, eu até respondia com o artigo do Desidério Murcho que saiu hoje no Público [disponível em http://dererummundi.blogspot.com/2009/02/papel-electronico.html, acedido em 05/02/2009]. Ele está a estudar em Londres e praticamente só lê filosofia, não romances, em e-books e diz que tanto lê bem em e-books quanto lê em papel. Ele está em Oxford e tanto a Oxford como a Cambridge University Press já publicam todos os livros em papel e simultaneamente em e-book que o Desidério descarrega imediatamente porque é mais barato. Ele é estudante de doutoramento em Oxford, tem uma promoção, o livro fica-lhe a metade do preço. Portanto, o suporte vai mudando e é normal; os nossos telefones mudaram, eu pensava que aquele telefone preto que havia em casa do meu pai com o digital redondo era eterno, mas já onde é que isso vai, já está no museu. Até os primeiros computadores já estão no museu...

RBE - Mas duma forma geral, até que ponto estes novos instrumentos podem ajudar a promoção da leitura?

MR - Os instrumentos técnicos promovem a leitura técnica, mas as coisas têm os seus limites, não podemos passar da utilização desses instrumentos todos para a leitura de Dostoievsky, acho que é um salto enorme. Portanto, tudo isso é bom e promove a leitura técnica, dentro de um léxico técnico que é bom que constitua o cidadão do século XXI. Se calhar nós já não gostamos muito, mas é o cidadão do século XXI. Depois haverá um conjunto de pessoas que em e-book ou em suporte papel lerá sempre o Dostoievsky. Esses são eternos também, lerão o Homero, lerão do Homero ao Dostoievsky passando pelo Joyce, até ao nosso Tavares, ao nosso Lobo Antunes, etc., todos esses... Haverá sempre um pequeno grupo de pessoas que, qualquer que seja a maneira, desde o écran do computador ao papel, lerá sempre estes autores porque são atraídos, porque sentem emotivamente o mesmo que esse autor sente e têm a mesma curiosidade que esse autor tem e só se sentem bem levantando grandes problemas de carácter axiológico, metafísico, histórico, etc.. É o que a literatura faz. Mas será que as pessoas todas querem isso? Eu cada vez acho mais que não, não querem, chegam-lhes os limites técnicos da própria leitura, chega-lhes o vocabulário técnico, que é importante também, não conseguem viver sem esse vocabulário. Hoje não receber e-mails é quase estar fora da sociedade, não ter um endereço electrónico é quase estar fora da sociedade, ao nível da Europa, se formos para África não, claro, é outro problema. Quem não está ligado à rede não existe, isso é muito importante.

RBE - Mas tem limites.

MR - Tem limites, tem, a quantidade não faz a qualidade, mas pode ajudar. Se eu tiver uma biblioteca em casa, 100 livros em casa, posso-me sentir estimulado a ler; se eu tiver 2 ou 3 posso não sentir. Mas estas questões não são perfeitamente objectivas. Por exemplo, o Saramago tinha 3 livros lá em Azinhaga, salvo erro, tinha 3 livros, dizia ele que os leu num instante, depois veio com o pai que foi cabo da polícia, veio para cá, já tinha 10 ou mais livros lá na parte de casa onde eles viviam, às tantas não chegou, passou da parte de casa para a Biblioteca Galveias. O Saramago quase nasceu vocacionado para livros. Porquê? Não sabemos, a psicologia dá algumas explicações que não são muito agradáveis. A pessoa muito isolada, a pessoa que tem uma grande solidão é que procura o livro, a pessoa que tem uma grande solidão é que procura o filme...portanto, quase que se procura o livro por deficiência, é o que a psicologia diz, mas é a psicologia americana.

RBE - A psicanálise também diz que a arte é sempre sublimação de desejos...

MR - A criação é sublimação, os recalcados é que escrevem, as pessoas felizes não são artistas, o artista é um cidadão recalcado, com traumas de infância...

RBE - Voltando à questão anterior. Não será que utilizamos pouco os suportes electrónicos como estímulo para a leitura? Por exemplo, o audiobook e o podcast, atendendo a que há géneros literários que se prestam muito à oralização?

MR - O podcast utilizamos nas aulas. Ainda não está generalizado mas nós utilizamos nas aulas todos os instrumentos possíveis e qualquer aluno que queira apresentar um trabalho nesse formato é absolutamente livre de o fazer e é estimulado logo pelos professores, tirando talvez um ou outro professor, nem são os mais velhos, aqueles que não estão muito à vontade com o universo tecnológico. Eu, mal eles me falam em qualquer tipo de programa que não conheça, digo logo: "traz na próxima aula, quero conhecer isso" e ficamos ali no intervalo a ver. Os alunos manipulam sempre melhor do que nós, pelo menos melhor do que eu manipulam sempre, com uma velocidade... aí está! Eles têm uma outra estrutura mental, uma outra categorização da realidade.

RBE - Para finalizar, diga-nos como é que concilia o professor, o escritor, o ensaísta, o historiador, o pensador, o crítico literário, o jornalista e o dramaturgo?

MR - Não penso nisso. Quando estou a fazer uma coisa não estou a fazer outra e sobretudo é melhor não pensar nisso. Quando me levanto sou marido, tenho uma mulher ao lado, sou marido; depois quando chego à escola sou professor; e quando janto, janto sempre com os meus filhos, sou pai - isso é sagrado que é para nunca perder o contacto, porque a partir duma certa idade os filhos começam a fugir. E depois quando não estou na escola, estou a escrever e a ler; o que chama dramaturgo, jornalista, escritor, etc., reduz-se a duas coisas, é ler e escrever, ler e escrever. E as coisas vão-se sucedendo ao longo do dia com normalidade, não é nada de metafísico. Não há propriamente um mistério embora levante algum mistério. Dá a impressão que agora vou ali para a serra, vou escrever, não. Saio daqui, vou para Lisboa, chego à Biblioteca Nacional, começo a escrever, pego na caneta, mando vir um livro...

RBE - Tudo se passa com a maior naturalidade.

MR - Sim, sim, é mais a pessoa que está de fora que diferencia, que categoriza as coisas, do que a pessoa que está a viver. Agora há coisas como ir ao cinema....o tempo não chega, ou vou ao cinema ou vou ao teatro, como gosto do teatro....Ver televisão não vejo praticamente, só às vezes o noticiário das dez, até para me manter actual, mas não me lembro de estar 4 horas, 3 horas a ver televisão. Portanto não há nada de misterioso, metafísico, transcendental.......

 


 

1.  Miguel Real é o pseudónimo do professor e escritor Luís Martins. Nascido em Lisboa, em 1953, tornou-se sintrense por adopção. É licenciado em Filosofia e Mestre em Estudos Portugueses com uma tese sobre Eduardo Lourenço. A sua extensa obra abrange o ensaio, o romance e o teatro - este último em colaboração com Filomena Oliveira - e já foi galardoada com diversos prémios:

1979 - Prémio Revelação de Ficção da APE/IPLB com O Outro e o Mesmo;

1995 - Prémio Revelação de Ensaio Literário da APE, para Portugal - Ser e Representação;

2000 - Prémio LER/Círculo de Leitores para A Visão de Túndalo por Eça de Queirós;

2005 - Prémio Fernando Namora da Sociedade Estoril Sol para A Voz da Terra.

Uma bolsa do programa "Criar Lusofonia" do Centro Nacional de Cultura, permitiu-lhe seguir, em 2001, o itinerário do Padre António Vieira pelo Brasil, do qual resultou um diário e material para o romance O Sal da Terra, cuja publicação, em simultâneo com o ensaio O Padre António Vieira e a Cultura Portuguesa, coincidiu com a comemoração dos 500 anos do nascimento do jesuíta luso-brasileiro, em 2008.

Para além de escritor, especialista em cultura portuguesa e crítico literário, Miguel Real é professor de Filosofia na Escola Secundária de Mem Martins e membro, desde sempre, da equipa da biblioteca.